domingo, 25 de outubro de 2020

PINOTAGE a casta emblemática da África do Sul

 Como todos vocês bem sabem minhas postagens tem como objetivo principal falar das castas e vinhos italianos, mas isso não é exclusividade, tanto que hoje escrevo sobre uma casta do "Novo Mundo" que, pessoalmente, gosto muito e que está entrando, aos poucos, nos gostos dos consumidores brasileiros: a PINOTAGE.

Falar de Pinotage é falar da África do Sul já que foi naquele país que a uva "nasceu" e que de lá foi levada ao conhecimento internacional, apesar de não ser a primeira em termos de superfície plantada, mas só a sétima (a primeira casta mais plantada na África do Sul é a Cabernet Sauvignon). Sim, falei nasceu porque a Pinotage foi "criada" em 1925 pelo Prof. Abraham Izak Perold cruzando um clone de Pinot Noir com outra uva tinta Cinsault, também conhecida como Hermitage. Agora entenderam porque esta casta se chama Pinotage (Pinot+Hermitage).

Foi só em 1941 que foi elaborado o primeiro vinho com Pinotage mas a uva somente começou a ser conhecida após 1959 quando um vinho produzido com esta casta ganhou o Consurso Cape Young Wine Shows na Cidade do Cabo e em 1991 começou a ganhar fama internacional quando no Concurso internacional "Wine & Spirits" de Londres um vinho produzido em pureza com a Pinotage foi premiado como melhor tinto do concurso.

A Pinotage é uma casta que tem amadurecimento precoce, bagos pequenos, casca grossa e com grande concentração de polifenois que incidem diretamente na cor do vinho (bem escura) e nos taninos (bem presentes). Nos últimos 10 anos, graças ao aperfeiçoamento das técnicas de plantio que diminuíram os rendimentos por hectares, encontramos vinhos produzidos com esta casta, seja em pureza que em blend (normalmente com Cabernet Sauvignon ou Shiraz) de maior qualidade. Os vinhos elaborados com uvas Pinotage tem uma cor vermelha escura intensa, aromas frutados de frutas vermelhas como framboesa e blackberry, notas de especiarias, fumaça e alcaçuz. Na boca tem ataque vigoroso com bastante taninos, e não se presta muito ao envelhecimento (devem ser consumidos, em média, depois 4/5 anos no máximo).

No Supermercado Zona Sul existem 2 ou 3 tipos de vinhos com uvas Pinotage, em pureza ou em blend, a partir de R$ 45,00...... vale  a pena conferir para experimentar

domingo, 4 de outubro de 2020

BAROLO x BARBARESCO

Barolo e Barbaresco são os vinhos mais nobres e talvez os mais conhecidos da região do Piemonte, ao norte da Itália, os dois produzidos com a uva Nebbiolo, que é cultivada na mesma região e na Lombardia, também conhecida lá como Chiavennasca, que é a responsável pelos vinhos (pouco conhecidos aqui no Brasil) Valtellina Superiore Docg e Sforzato della Valtellina Docg, este último obtido deixando passificiar as uvas. No Piemonte a uva Nebbiolo é plantada em praticamente toda a região mas é no Langhe, uma área de colinas e pré-montanhas ao leste do rio Tanaro, entre as províncias de Cuneo e Asti, que esta casta achou o seu terreno ideal para exprimir todas suas características enológicas e nos proporcionando vinhos de enorme potência e estrutura mas extremamente elegantes. Não é a toa que na Itália os vinhos produzidos com a casta Nebbiolo, especialmente aqueles oriundos da Langhe, são conhecidos como "un pugno di ferro in un guanto di velluto" (um soco de aço em uma luva de veludo).

Neste post queria enfatizar um pouco as diferenças entre este dois vinhos obtidos com as mesmas uvas que, apesar de serem plantadas em dois vilarejos divididos por, somente, 20 Km (Barolo de Barbaresco), apresentam características bem distintas em função do terroir.

BAROLO

Rei dos vinhos e vinho dos reis. Assim é definido a mais de 250 anos e, sem sombra de dúvida, é um dos DOCG italianos mais prestigiado e conhecidos a nível internacional. É conhecido por ser um "vinho macho" pela sua estrutura robusta e pela potência, onde os taninos desenvolvem um papel fundamental pela definição de seu caráter. A casta nebbiolo apresenta um conteúdo muito alto de polifenois, um dos mais elevados entre todas as castas tintas (responsável pela estrutura robusta do vinho), mas um modesto conteúdo de substâncias corantes, por isso os vinhos obtidos desta uva apresentam um cor vermelha viva mas relativamente transparente. O Barolo foi o primeiro vinho italiano que adotou o conceito de cru, e ainda hoje os produtores, especialmente da área da Langhe, seguem à risca este conceito: diferentemente de outras áreas a Langhe foi atentamente estudada em suas características e qualidades, chegando a classificar diferentes porções de território. O conceito de cru é tão radicado nos produtores de Barolo que, praticamente, a quase totalidade das garrafas produzidas evidenciam, no rótulo, a menção do vinhedo e do território de origem.

O Barolo, para amaciar os poderosos taninos presentes, é envelhecido desde sempre em barris de madeira de grandes dimensões, que demandam muito tempo antes que o vinho seja mais "apto" ao consumo; porém nos últimos 20 anos alguns produtores começaram a utilizar as barriques francesas de 225 l. que demoravam menos tempo para "domar" os taninos vivos do nebbiolo enfatizando, porém, os aromas terciários típicos do envelhecimento em madeira e gerando uma verdadeira guerra entre os tradicionalistas e os modernistas. Esta guerra está longe de terminar.

BARBARESCO

Apesar da potência que a casta nebbiolo confere aos vinhos, o Barbaresco é conhecido para ter um caráter mais "feminino", em contraposição à masculinidade do Barolo, evidenciando, deste modo, uma maior elegância e requinte: nem da para imaginar que os dois vilarejos, Barolo e Barbaresco, que cedem o nome aos dois vinhos,  ficam á 20 km de distância. O conceito de cru tão valioso para o Barolo, também é utilizado para o Barbaresco: os vários terrenos que compões a província foram estudados a fundo e da mesma maneira os vinhos são oriundos de um único vinhedo, característica que é comum a maioria dos vinhos do Piemonte mesmo fora da região da Langhe.

Aqui também o vinho é envelhecido em barris de madeira para "arredondar" os taninos, mas ao contrário do que acontece com o Barolo, a luta entre modernistas e tradicionalistas quanto ao uso de barris de grande tamanho ou de barrique de pequenas dimensões, não existe. Mas os leitores não pensem que por ser considerado um vinho com características mais "femininas", seja mais leve ou menos encorpado: na realidade a "feminilidade" do vinho se refere a delicadeza dos perfumes e a menor agressividade dos taninos, características que são cedidas ao vinho pelas condições dos terroirs adjacentes ao vilarejo do Barbaresco.

DEGUSTAÇÕES 

Seja Barolo que Barbaresco são vinhos vinificados exclusivamente da uva nebbiolo e que envelhecem em barris de madeira, a grande diferença, em conformidade aos disciplinares de produção, é que o Barolo deve envelhecer no mínimo 3 anos dos quais 2, pelo menos, em madeira, já para o Barbaresco o período de envelhecimento deve ser de, no mínimo, 2 anos dos quais 1, pelo menos, em madeira.

ANÁLISE VISUAL

Como falamos anteriormente os vinhos obtidos da uva nebbiolo não tem uma carga muito intensa de substâncias corantes, por isso apresentam uma transparência relativamente acentuada (durante a análise visual para verificar a intensidade da cor temos que inclinar a taça com o vinho e colocá-la por cima de um fundo branco - um papel com algo impresso é muito bom, se conseguimos enxergar o que está escrito no papel dizemos, normalmente, que o vinho tem uma cor não intransponível e dependendo do quanto podemos enxergar as escritas, será mais o menos transparente) caracterizada por tonalidades vermelho rubi brilhante e intenso. Devido a escolha de envelhecer os vinhos em madeira a cor ou as tonalidades nunca serão vermelho púrpura, cor típica dos vinhos jovens; com o tempo as tonalidades tendem ao vermelho alaranjado.

ANÁLISE OLFATIVA

Os perfis olfativos dos vinhos produzidos com a casta nebbiolo, especialmente se envelhecidos por longos períodos de tempo em madeira, são caracterizados por uma boa complexidade de aromas terciários que, depois de um tempo, deixam espaço as características peculiares de flores e frutas típicas da uva. A força dos aromas terciários é definida pelo tipo de barril utilizado para o envelhecimento: com barris menores, tipo barriques, geralmente os aromas terciários típicos da madeira (baunilha e coco) são mais intensos, já quando se utilizam barris de grande capacidade os aromas terciários são menos pronunciados e as qualidades floreais e frutadas são mais perceptíveis. Entre os aromas mais comuns nos Barolo e Barbaresco se destacam a cereja, ameixa e a violeta, que também se encontram em outros vinhos produzidos com a uva nebbiolo. Dependendo do terroir são identificáveis também aromas de morango, framboesa, rosa e ciclâmen.

ANÁLISE GUSTATIVA

Força, potência e elegância. Estas são as características principais na boca destes dois vinhos. A nebbiolo é uma uva rica em substância polifenólicas e produz vinhos com uma adstringência muito marcada e com forte estrutura; a uva também nos proporciona altos índices de acidez, por isso os Nebbiolo e Brabaresco devem estagiar por muito tempo em madeira, para atenuar a estrutura, mitigar a acidez e arredondar a exuberância dos taninos. A alta graduação alcoólica destes vinhos (não é raro achar vinhos com 14%) permite amaciar as características "nervosas" destas fantásticas joias enológicas do Piemonte e da Itália.