quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

2021 marca a retomada dos Espumantes

 2021 marca a retomada do consumo dos vinhos em geral que, depois das baixas nas vendas registradas em 2020 causa lockdown pela Covid 19, estão reagindo de forma vigorosa retornando ou até melhorando os volumes de 2019. Esta e a tendência registrada em todos os principais países produtores de vinhos, da Itália a França, passando pela Espanha, para todos as categorias de vinhos. 

Os mais prejudicados pela crise de 2020 foram, sem sobra de dúvidas, os espumantes, protagonistas dos consumos fora de casa, e desde sempre sinónimos de festa e celebração, que mais de qualquer outra categoria sentiram na própria pele as consequências das medidas restritivas impostas durante a primeira onda de infecções do Covid. Quem tinha vontade de festejar quando todos estavam sendo infectados por esta misteriosa virose? Começando pela Itália 2021 foi um ano de recordes em conformidade a quanto divulgado pela Coldiretti (Organização dos empresários agrícolas italianos), com mais de 1 bilhões de garrafas produzidas, registrando um aumento de 23% em comparação a 2020. Números expressivos aonde o sistema Prosecco (Prosecco Doc, Asolo Prosecco e Valdobbiadene Prosecco Superiore) é o espumante mais representativo com 753 milhões de garrafas produzidas, dos quais 600 milhões são de Prosecco Doc. O Asti Docg volta a crescer com 102 milhões de garrafas a frente de Franciacorta, Trento Doc e Oltrepó Pavese. O sucesso dos espumantes italianos é fruto do aumento do mercado interno com um valor, de +27% mas também do forte aumento da demanda internacional que, com +29% em comparação a 2020, alcançou o volume de venda de 700 milhões de garrafas.

Se em volumes os espumantes italianos em suas diferentes denominações dominam as exportações, a França é que detém o recorde em valor das exportações de espumantes: graças as exportações e a fidelidade dos consumidores das grandes cuvées, o Champagne alcança, em 2021, um faturamento de 5,5 bilhões de Euros, apesar da média das exportações no período 2020-2021 ficar em 290 milhões de garrafas (4,9 bilhões de faturamento), abaixo de quanto registrado em 2019, período pré pandemia (300 milhões de garrafas por 5 bilhões de faturamento), conforme quanto divulgado por Jean-Marie Barillère, presidente da Union de Maisons de Champagne. Em 2021 as vendas de Champagne alcançaram as 322 milhões de garrafas (+32% em comparação a 2020), com o mercado interno registrando +25% por un total de 142 milhões de garrafas e com exportações em aumento (totalizando 182 milhões de garrafas).

Já o Cava, o método clássico espanhol, fica no meio entre o Prosecco e o Champagne no que diz respeito a produção, faturamentos e preços. Com base nas estimativas publicadas pelo Consejo Regulador da grande denominação espanhola, as vendas de Cava alcançaram 250 milhões de garrafas, com um crescimento de 16,45% em comparação a 2020 e acima dos níveis registrados em 2019. Cresce o mercado interno espanhol, mas de 4 garrafas produzidas 3 são destinadas a exportação, com os EUA que aumentaram o volume em 63%, ficando assim o segundo mercado de destino do Cava, só atrás da Alemanha.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O que está acontecendo em Bordeaux?

Como todos bem sabem quando pronunciamos a palavra Bordeaux, falamos de vinhos, de terroir, de chateau, de glamour, de tradição, de riqueza, enfim falamos da mesma essência dos vinhos franceses, porém mesmo com toda a tradição iniciada "oficialmente" em 1855, que faz desta região talvez a mais conhecida e estimada do mundo em termos de produção de vinhos, algo está mudando, e as vezes de forma drástica.

Primeira notícia que data janeiro de 2021 é que o INAO (Istitut Nacional de l'Origine et de la Qualité), órgão regulador da agricultura na França, aprovou o plantio de seis novas castas na região de Bordeuax, são elas Arinarnoa, Castets, Marselan e Touriga Nacional (tintas) e Alvarinho e Liliorila (brancas). A autorização já valia para plantio em 2021 com algumas restrições: estas castas só poderiam ser utilizadas em vinhos AOC Bordeaux e Bordeaux Superieur, os vinhedos não poderiam passar de 5% do total da propriedade e 10% do blend final dos vinhos. Pela primeira vez em mais de 150 anos o tradicional corte bordalês, composto até então pelas castas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Carmenere, Petit Verdot e Malbec (tintas) e Semillon, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris, Muscadelle, Colombard, Ugni Blanc, Merlot Blance Mauzac (brancas) ganha novas opções de uvas. Esta decisão da INAO foi motivada pelo aquecimento global, ou seja a região busca novas castas que se possam adaptar as mudanças climáticas, já que os vinhedos em Bordeaux vem sofrendo com altas temperaturas que superaram os 41 graus no verão de 2019, sem que a qualidade da produção seja afetada. Apesar da motivação ter como finalidade garantir a alta qualidade da produção e volumes que possam satisfazer a demanda internacional sempre crescente deste vinhos, muitos operadores e críticos enxergaram esta medida como uma tentativa de "internacionalizar" a qualidade dos vinhos, tirando a própria essência de Bordeaux, que seria a tradição secular de um sistema que funciona.

Mais recentemente, a partir do verão de 2021, em Saint-Émilion, região do lado direito do rio Garonne, muito famosa pela produção de alguns dos vinhos mais conceituados e caros de Bordeaux, e que detém uma denominação especifica de classificação dos vinhos, que ao contrário do que acontece em Medoc, é atualizada a cada 10 anos (última atualização em 2012) dois dos 4 Chateau que detinham a mais alta classificação da região, Premiere Grand Cru Classé A, Cheval Blanc e Ausone, decidiram retirar as próprias candidaturas para 2022 para continuar na mais prestigiosa denominação de Saint-Émilion, e no começo desta semana a mesma decisão foi tomada por outro Chateau, o Angélus, deixando assim, para a próxima análise da denominação, só o Chateau Pavie o único representante da "velha guarda". Estes movimentos estão deixando o mundo do vinho, especialmente na França, muito apreensivo quanto ao desfecho desta questão, porque está se colocando em discussão um sistema, o do Saint-Émilion, que nasceu para ser mais elastico e mais atualizado que o de Medoc mas que, depois de 6 edições, parece se basear em algumas características que nada tem a ver com o mundo do vinho, como número de enoturistas atraídos pela denominação ou número de seguidores da denominação pelas redes sociais.  O  caso do Chateau Angélus é ainda mais complexo porque parece que a decisão recém tomada seria uma retaliação a decisão da justiça francesa, depois de 10 anos de luta, que condenou Hubert de Bôuard, atual proprietario, por tráfico de influencia por ter sido um dos integrantes do comité que definiram em 2012 os padrões de qualidade para a denominação Premier Grand Cru Classé A, que justamente seu Chateau adquiriu.

Obvio que até o próximo capitulo desta intricada novela o topo da piramide da denominação Saint-Émilion continua a mesma, porém existem críticos que se expressaram seja a favor que contra tal situação: os que apoiam argumentam que uma propriedade deve se destacar não só pela qualidade de seus produtos (ou seja pela características intrinseca do vinho) mas também pelos serviços oferecidos, glamour e fama adquiridos nacionalmente e internacionalmente, medidos também pelo tráfego nas redes sociais ou pelo número de visitas de enoturistas; já os que criticam salientam que o prestigio de um Chateau só diz respeito a qualidade dos produtos ali elaborados como resultado da tradição, do do conhecimento do território e dos processos de produção seculares.

Difícil prever como terminará esta situação, mas, com certeza, vinhos como Chateau Cheval Blanc, cujo vinho da safra 2006 está sendo vendido aqui pela World Wine pela bagatela de R$ 13.600,00, ou Chateau Ausone, vendido pela Wine, safra 2012, a R$ 18.763,53, não precisam de mais alguma denominação para serem ainda mais valorizados.....Será que você deixaria de comprar um vinho só porque não faz mais parte de uma denominação?