terça-feira, 24 de março de 2020

VINHOS ROSADOS E SUAS HARMONIZAÇÕES

No universo dos vinhos sem sombra de dúvida os rosados são os menos considerados pelo consumidores em geral: talvez por falta de conhecimento, talvez por serem uma via do meio entre os brancos e os tintos, muitas vezes estes vinhos sofrem de preconceitos e são considerados como vinhos de baixa qualidade. Na realidade estes vinhos frescos e perfumados foram descreditados pelo grande público por dois motivos principais: 1) a falta de conhecimento de como estes vinhos são produzidos induz o consumidor a pensar que são produtos feitos "manualmente" e com matérias primas de baixa qualidade; 2) muitos proprietários de bares e restaurantes para tentar ganhar um dinheiro fácil misturavam (mas infelizmente esta prática ainda acontece mais que deveria) vinhos tintos e brancos de baixa qualidade oferecendo aos clientes vinhos que chamavam de rosés, mas que nada tinham a ver com o verdadeiro vinho rosé.
Vamos tentar fazer um pouco de clareza quanto a produção dos vinhos rosés: são vinhos a pleno título, obtidos com métodos de vinificação bem específicos conforme as varias legislações dos países produtores, por isso não menos qualitativos de qualquer outro vinho branco ou tinto. Os rosés (ou rosados) são produzidos em todos os países do mundo onde existem uvas viníferas tintas e a própria cor (maior ou menor intensidade de rosa) é devido ao tempo que as cascas ficam em contato com o mosto (normalmente a maceração varia de 24 à 36 horas) e a quantidade de pigmentos corantes (antocianinas) presentes nos vários tipos de uvas. 
Como falei antes todos os países que plantam uvas viníferas podem produzir vinhos rosés porém existem algumas regiões onde estes vinhos constituem a maioria da produção total. É o caso de algumas áreas da França, mais especificadamente na parte meridional do País, onde a produção de vinhos rosados virou uma tradição e um simbolo de distinção: no vale do Rhône existe uma discreta produção de vinhos rosados obtidos principalmente das castas Grenache e Cisnault, mas também da Syrah, Mourvedre e Carignan nas regiões de Tavel. Lirac. Vacqueyras, Gigondas, Coteaux de Tricastin, Cotes du Vivarais e Cotes du Luberon. No Languedoc-Roussillon, área muito conhecida pela produção dos famosos vinhos doces naturais (vins doux naturels), também, são produzidos vinhos rosados a partir das castas Carignan, Grenache, Cisnault, Mourvedre e Syrah, com destaques para os vinhos de Collioure, Minervois, Saint-Chinian, Cotes du Russillon, Faugeres e Coteaux de Languedoc. A região mais conhecida da França pela produção de vinhos rosados, que representam mais do 75% de todos os vinhos da área, é a Provence, na parte merdional, onde as uvas Grenache, Syrah, Cisnault, Carignan, Mourvedre e Tibouren. Entre as áreas da região mais famosas por estes tipos de vinhos podemos citar Coteaux d'Aix-en-Provence, Les Baux-de-Provence, Cotes de Provence, Palettes, Cassis, Coteaux Varois, Bellet e Bandol, estes últimos envelhecidos em madeira.
Já na Itália a produção deste vinho não é tão expressiva porém deve-se observar que vários disciplinares de produção dos vinhos DOC já preveem vinhos rosados. A região de maior tradição de vinhos rosés é, sem sombra de dúvida, a Puglia , que produz excelentes vinhos a partir das castas Negroamaro e Malvasia Nera e vale a pena destacar os rosés do Salento, o Salice Salentino rosado, l'Alezio rosado e o Castel del Monte rosado, único vinho DOCG rosado da Itália. Sempre ficando no Sul a Calabria também tem um vinho rosado bem conhecido, o Cirò rosado obtido de uvas Gaglioppo e na Campania encontramos vinhos rosados oriundos da casta Aglianico como o Aglianico del Taburno rosado e o Lacryma Christi del Vesuvio rosado, este ultimo obtido com uma pequena porcentagem da casta Piedirosso. Já no norte da Itália é a área oriental auqle mais votada a produção de vinhos rosados: a mais conhecida é aquela do Lago di Garda onde são produzidos o Grada Chiaretto a partir de uvas Groppello e o Bardolino Chiaretto com uvas Carvina, Rondinella e Molinara.
Fora da Itália e França, mas sempre na Europa,  encontramos produções importantes de vinhos rosés na Espanha, especialmente nas áreas do Rioja, Ribeiro del Duero e Navarra, a maioria destes vinhos obtidos s partir das castas Tempranillo e Garnacha.
Em termo de harmonização os vinhos rosados oferecem interessantes oportunidades, são extremamente versáteis e aptos a serem associados àqueles pratos onde um vinho branco seria aquém e um tinto além, graças ao baixo conteúdo de taninos e a sua jovialidade e ao fato de poderem ser servidos a mesma temperatura dos brancos. Normalmente falamos dos vinhos rosados como aqueles que tem as mesmas características aromáticas dos tintos com a vantagem de servem servidos como brancos, e por isso a gama de harmonizações se amplia muito, compreendendo entradas, pratos de massa, risotos, carnes e até queijos.
Uma das características principais dos vinhos rosés é o frescor dos aromas, os mesmos que são típicos dos vinhos tintos jovens porém, como já falei, já que esta tipologia de vinhos é uma via de meio entre os brancos e os tintos, se apresentam características tipas dos dois, mas com menor incisividade, poe exemplo os rosados tem uma discreta acidez, menor que nos brancos mas mais persistentes que nos tintos, e uma maior maciez, apresentando também uma leve adstringência (característica típica dos tintos). Graças a maior maciez e a uma acidez equilibrada os vinhos rosados são ótimos acompanhamentos para os pratos de massas com molhos de tomate, para as massas recheadas e ao forno e também para as pizzas em geral. Sendo mais estruturados que os brancos mas com menos taninos que os tintos e por isso menos adstringente, os rosados são perfeitos nas preparações de pratos a base de peixes, em especial para as sopas de peixe ou peixes assados e bem aromatizados. Podem também serem harmonizados com cogumelos e com queijos frescos e não curados. Podem também acompanhar pratos de carne, especialmente as brancas, sejam elas assadas ou saltadas na panela, mesmo acompanhadas por cogumelos ou trufas. O segredo para harmonizar um vinho é conhecer bem o prato que o deve acompanhar, mas pessoalmente acho que os vinhos rosados são perfeitos como aperitivos pois podem ser servidos em temperaturas baixas e por serem, mediamente, de teor alcoólico moderado.

segunda-feira, 2 de março de 2020

BORGONHA - A FRANÇA DO GLAMOURE

A Borgonha é uma pequena região localizada na área centro oriental da França, geograficamente delimitada ao norte pela cidade de Dijon e que se estende por, aproximadamente, 50 km ao sul e, sem sombra de dúvida, uma das áreas enológicas mais conhecidas no mundo pela elegância e complexidade de sues vinhos, principalmente produzidos de uvas Chardonney e Pinot Noir, e pela fama e valor que estes vinhos ganharam ao longo dos anos. Não é a toa que 6 produtores da Borgonha fazem parte da última Liv Ex Power 100 que classifica as grandes marcas de vinho com base em diversos critérios que dizem respeito a preços, volumes, valores contratados, e número de referências tratadas.
A localização geográfica e o clima da região são as características principais pela qualidade dos vinhos: deve-se considerar que a Borgonha é um dos lugares mais a norte no mundo onde se produzem vinhos tintos de qualidade e o Chardonnay e o Pinot Noir exprimem suas melhores características em climas frescos como aquele que se encontra, justamente, nesta região. Porém latitudes tão elevadas nem sempre são uma vantagem, pois as adversidades climáticas podem levar a safras desfavoráveis onde o amadurecimento do vinho é comprometido alterando as características gustativas-olfativas.
Enquanto os Chateaux dominam Bordeuax na Borgonha os demaines são de casa: ao contrário do que acontece em Bordeaux, aqui não representam uma única propriedade composta de vinhedos geralmente colocados nos arredores do chateaux, mas sim um conjunto de vinhedos, até muito pequenos, deslocados em várias áreas do mesmo território, as vezes longe um do outro e em denominações diferentes. Estes terrenos pertencem a uma única empresa e as uvas são vinificadas separadamente de modo a refletir as características de cada área específica. 
O terroir é um conceito extremamente importante na Borgonha e aqui como em nenhum outro lugar do mundo o zonamento representa a essência da enologia da região.
Além do Chardonnay e do Pinot Noir na Borgonha se cultivam também a uva Aligoté (uva branca do Maconnais utilizado para produzir vinhos comerciais e de mesa presentes no Cremant de Bourgogne) e a Gamey, conhecidas uvas tintas que da origem aos famosos vinhos Beaujolais.
Para dizer quanto esta região é tão importante dentro do cenário enológico francês temos que analisar mais a fundo a classificação da Borgonha e, realizamos, que o sistema de classificação aqui é diferente d outras áreas da França. Na Côte d'Or são previstas quatro categorias distintas: as Appelations Regional (Bourgogne Rouge e Bourgogne Blanc) produzidos com uvas provenientes de diferentes propriedades e fazendo blend com vinhos produzidos em vários territórios da região. Um degrau acima temos as Appelations communal ou seja os Villages que se destinam aos vinhos produzidos em uma única área específica estabelecida pelo disciplinar de produção. Na etiqueta principal os vinhos devem evidenciar o nome do vilarejo (Beaune, Chambolle-Musigny, Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet, Nuits-St.Georges, Vosne-Romanée etc.). As categorias superiores preveem a diferenciação dos vinhos por vinhedo. A menção Premier Cru atualmente é destinada à 562 vinhedos (climat) que representam, aproximadamente, o 11% da produção total da Borgonha. O nome do vinhedo é evidenciado, na etiqueta principal, logo atrás do nome do vilarejo onde está localizado. A topo da piramide qualitativa é representada pela classificação Grand Cru representada atualmente por, apenas, 33 vinhedos (2% da produção total da região) e nestes casos na etiqueta principal só é evidenciado o nome do vinhedo sem o nome do vilarejo de localização (Batard- Montrachet, Clos de Veugeot, Echezéaux, La Romanée, La Tâche etc.)
Quanto as áreas de produção a Borgonha pode ser dividida em 5 sub áreas distintas:


  1. CHABLIS - Esta sub área é localizada a 180 Km ao sul de Paris e a, aproximadamente, 100 Km ao norte da área principal da Borgonha e a somente 40 Km da região de Champagne. Se produzem exclusivamente vinhos bracos a partir da casta Chardonnay, frescos e muitas vezes caracterizados por aromas minerais. Normalmente são fermentados e afinados em tanques de aços inox, tendo características gusto-olfativa mais básicas.
  2. CÔTE d'OR - Compreende a área geográfica que vai da cidade de Dijon até Santenay sendo esta a área mais famosa da Borgonha: todos os vinhos Premier Cru e Grand Cru são produzidos nesta sub área. A Côte d'Or è, por sua vez, dividas em duas micro regiões: A Côte de Nuits ao norte e a Côte de Beaune ao sul. Na Côte de Nuits, localizado no norte, a uva rainha é a tinta Pinot Noir mas também estão presentes pequenas produções de vinhos brancos oriundos de uvas Chardonnay, Pinot bianco e Pinot grigio. Aqui também o território é divididos em vilarejos com as próprias classificações específicas: entre as mais importantes lembramos a Chambolle-Musigny, Fixin, Gevrey-Chambertin, Marsennay, Morey-Saint-Denis, Nuits-Saint-Georges, Vosne-Romanée e Vougeot. Entre os Grand Cru vale a pena lembrar o Bonnes Mares,Chambertin,  Chambertin-Clos de Beze, Clos de Roche, Grands Echezeaux, Clos de Veugeot, Musigny, Richebourg, Romanée Conti e La Tache. Em um nível mais baixo achamos as denominações Côte de Nuits Villages e Hautes-Côtes de Nuits cujos terrenos encontram-se em altitudes maiores e resultam em vinhos de menor prestigio. Já a Côte de Beaune identifica a área meridional da Côte d'Or e se produzem principalmente vinhos brancos oriundos de uvas Chardonnay, entre o melhores do mundo, e alguns vinhos tintos também, mas muito menos conhecidos. Entre os vilarejos da Côte de Baune lembramos Aloxe-Corton, Auxey-Duresses, Beaune, Blagny, Chassagne-Montrachet, Chorey-Lès-Beaune, Landoix-Serrigny, Meursault, Monthélie, Pernand-Vergelesses, Pommard, Puligny-Montrachet, Saint-Aubin, Saint-Romain, Santenay, Savigny-Lès-Beaune e Volnay. Os Grand Cru desta sub área são Montrachet, Bâtard-Montrachet, Bienvenue-Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, Corton-Charlemagne e Criots-Bâtard-Montrachet. Os vinhos pertencentes a denominalção Côte de Baune Villages são produzidos por meio de misturas de outras uvas (blend) enquanto os Hautes-Côte de Baune tem un nível qualitativo inferior a causa da maior altitude a da menor exposição ao sol das videiras.
  3. CÔTE CHALONNAISE - localizada ao sul da Côte d'Or aqui se produzem vinhos brancos e tintos. Nesta sub área não existem vinhos Grand Crus mas temos diversos Premiere Cru, a ladeia mais famosa é Mercurey já em Bouzeron se produzem os melhores vinhos brancos oriundos da casta Aligoté. Outras aldeias famosas são Givry (vinhos tintos), Montagny (vinhos brancos) e Rully conhecida pela produção de espumantes método clássico denominados Cremant de Bourgogne e produzidos com castas Aligoté e, em menor porcentagem, Pinot Noir, CHardonnay, Pinor bianco e Pinor grigio.
  4. MÂCONNAIS - descendo mais ao sul se produzem vinhos brancos menos elaborados sendo que, nesta sub área, não estão presentes Premier Cru e Grand Cru. Os melhores vinhos desta sub área são os das aldeias Mâconnais, Poully-Fuissé e Saint-Veran, todos produzidos a partir de uvas Chardonnay. Curiosidade: nesta área existe uma pequena aldeia chamada justamente Chardonnay só que não se sabe se o nome da uva seja oriundo do nome do vilarejo ou vice versa.
  5. BEAUJOLAIS - é a sub área vinícola mais ao sul da Borgonha, completamente diferente das outras sub áreas mesmo pertencendo a mesma micro região. Diferente seja pelo clima que pelas uvas: aqui o protagonista é o Gamay, uva tinta com o qual é produzido o famoso Beaujolais Village, tão famoso graças ao marketing do governo francês que ofuscou outros vinhos bem mais importantes desta sub área. O 90% da produção é de vinhos tintos (os brancos são feitos a partir das castas Chardonnay e Aligoté e nos vinhos Beaujolais temos 3 classificações de qualidade: Beaujolais, Beaujolais Village e Beaujolais Cru que, neste caso, não indica os vinhedos mas sim as dez melhores aldeias da sub área:Brouilly, Chénas, Chiroubles, Côte de Brouilly, Fleurie, Juliénas, Mourgon, Moulin-à-Vent, Reginé e Saint-Amour.