terça-feira, 4 de agosto de 2026

VINDIMA 2026 NA ITÁLIA - OS CONSORCIOS DE TUTELA DAS PRINCIPAIS DENOMINAÇÕES REDUZEM OS RENDIMENTOS

 A vindima 2026 está começando, mas nas vinícolas italianas, de modo geral, há mais do que uma safra média em estoque (49,1 milhões de hectolitros em 31 de maio de 2026), e muitas regiões importantes já decidiram ou estão decidindo adotar medidas de contenção e gestão da oferta, principalmente por meio de reduções nos rendimentos em relação ao previsto nos regulamentos, mas também com armazenamento e outras medidas, para conter a produção em uma fase difícil do mercado e também para evitar que o excesso de produto possa fazer os preços dos vinhos a granel caírem.

O Consórcio Toscana IGT enviou à Região da Toscana uma solicitação para reduzir os rendimentos em 20% em relação ao previsto no disciplinar de produção: de 17 para 13,6 toneladas por hectare para os vinhos brancos e de 16 para 12,8 para os vinhos tintos Toscana IGT. Um caminho, ainda na Toscana, já trilhado por diversos consórcios. Como o do Brunello di Montalcino, que há algum tempo decidiu reduzir o rendimento de 8 para 7 Toneladas por hectare até 2026, ou como o do Chianti, que confirmou, assim como em 2025, a solicitação de redução de 20% nos rendimentos, para todas as variedades, também neste caso aguardando aprovação da Região. Assim como a solicitação apresentada pelo Chianti Classico, que, também neste caso, assim como no ano passado, pediu a redução de 1 Ton. por hectare, de 7,5 para 6,5, ou, alternativamente, a possibilidade de as vinícolas não reduzirem a produção de uvas, mas desclassificarem uma quantidade equivalente de produção de vinho das três safras anteriores.

No Vêneto, por outro lado, o Consórcio de Tutela da Valpolicella já havia deliberado, a partir de 2025 e por um período de três anos, uma redução no rendimento por hectare de 12 para 10 Tons de uva, dos quais 2 destinados ao armazenamento. Já a maior denominação de vinhos brancos da Itália, a do Pinot Grigio delle Venezie (27.000 hectares entre Veneto, Friuli-Venezia Giulia e Alto Adige), aprovou, para a colheita de 2026, uma redução dos rendimentos para 16 Tons por hectare, dos quais 3 destinados ao armazenamento administrativo. 

No Piemonte, o Consórcio do Barolo, Barbaresco, Alba, Langhe e Dogliani aprovou uma redução de 10% (para 9 Tons por hectare) para o Langhe Nebbiolo e o Barbera d’Alba DOC, mas, por enquanto, não estão previstas reduções de rendimento para os Nebbiolo destinados ao Barolo e ao Barbaresco. Já o consórcio da Barbera d’Asti e Vini del Monferrato decidiu reduzir o rendimento da Barbera d’Asti de 9 para 8,5 Tons por hectare e o excedente da safra de 1,8 para 0,5 Tons, o que significa que, na prática, cada hectare de Barbera poderá produzir, no máximo, 9 Tons, e não 11,8 conforme previsto no regulamento.

Trata-se, obviamente, de um panorama parcial e provisório, mas que dá uma ideia de como um vinho italiano vem aproveitando todas as oportunidades para reequilibrar a oferta e a demanda e defender os valores do produto (e, consequentemente, dos terrenos) em uma fase, já prolongada, de grande complexidade.



domingo, 26 de julho de 2026

VINHO TINTO NO VERÃO? PODE-SE BEBER UM POUCO MAIS FRIO

Vinho tinto? No verão, bebe-se um pouco mais frio. Uma tendência cada vez mais difundida (e um tabu que já não é mais considerado tal).

Se até poucos anos atrás essa prática era considerada herética pelos sommeliers mais ortodoxos, agora está se tornando uma tendência cada vez mais difundida: o vinho tinto no verão pode ser servido gelado. Perfeito para churrascos, aperitivos e jantares ao ar livre, o tinto “resfriado” se torna uma escolha de estilo, quebrando um dos maiores tabus do serviço. Isso é confirmado por sommeliers de renome, como Paolo Porfidio (Excelsior Hotel Gallia, Milão), segundo o qual “também é agradável saborear uma taça de Brunello di Montalcino ou de Barolo no verão, na temperatura certa”, como Sebastien Ferrara (Enrico Bartolini al Mudec, Milão), que afirma que “servir um grande tinto a uma temperatura em torno de 13-14 °C não é mais um tabu, mas um ato de atenção e acolhimento”, ou como Marco Reitano (La Pergola de Heinz Beck, em Roma), segundo o qual “nosso paladar anseia por frescor; no vinho tinto, todos nós gostaríamos de encontrar um pouquinho de branco”.

Mas essa tendência também é apoiada pelos enólogos. “Pelo meu gosto pessoal, degusto os vinhos tintos entre 15 e 17 graus, não mais do que isso”, explica Riccardo Cotarella, presidente da Assoenologi e um dos mais importantes profissionais italianos. “Em primeiro lugar, sente-se menos o álcool; não há aquele domínio alcoólico que se percebe quando se serve a 20-22 °C; portanto, há mais equilíbrio entre os diversos componentes e também uma melhor percepção da qualidade do vinho”. Leonardo Palumbo (vice-presidente da Union Internationale des Enologues): “trata-se de uma tendência positiva que poderia facilitar o consumo de vinhos tintos entre as novas gerações de consumidores”, enquanto, para Mariano Murru (presidente da Assoenologi Sardegna e enólogo da vinícola Argiolas) “o problema é que, às vezes, os vinhos tintos continuam sendo servidos na chamada temperatura ambiente, mas esquece-se que, por ‘ambiente’, entende-se a temperatura da adega, portanto, decididamente mais baixa do que as que registramos no verão”. E agora as vinícolas italianas também apostam em vinhos tintos criados especialmente para a estação quente, concebidos justamente com o objetivo de serem consumidos depois de um tempo na geladeira.

Afinal, servir um vinho da maneira correta não é um gesto técnico, mas uma forma de respeito. Significa reconhecer que cada garrafa tem um momento exato em que se expressa da melhor forma, e que esse momento muda de acordo com a estação do ano, a luz e o contexto. No verão, mais do que nunca. Segundo Paolo Porfidio, chefe de sommeliers do Excelsior Hotel Gallia, em Milão, um hotel cinco estrelas de luxo, e enólogo "sem cair em extremos ou exageros, é fundamental manter frescos também os vinhos de denominações mais estruturadas. Por exemplo, vinhos importantes como o Brunello di Montalcino ou o Barbaresco podem ser servidos a cerca de 14 °C, até porque, no tempo que leva para abri-los e servi-los, eles já ganham 1 a 2 graus. A conservação, portanto, é fundamental para que cheguem à mesa já na temperatura certa. Se, por outro lado, for um Etna Rosso, um Pinot Noir e, em geral, vinhos com taninos mais suaves e delicados, pode-se baixar a temperatura até 13 °C. É melhor evitar vinhos muito jovens e com taninos muito agressivos; caso contrário, corre-se o risco de perceber uma sensação adstringente. Resumindo, é agradável beber uma taça de Barolo no verão, na temperatura certa, mantendo-o bem gelado, mas obviamente não são vinhos para a praia”.

“Antigamente, para as degustações, servia-se o vinho — destaca Riccardo Cotarella, presidente da Assoenologi e consultor de mais de 80 importantes vinícolas na Itália e no mundo — com o termômetro indicando temperatura ambiente, mas se estiver fazendo 25 graus, ou até mais, uma temperatura que no verão é perfeitamente normal, essa não é a melhor maneira de apreciar um vinho tinto no verão; o vinho tinto deve ser servido mais fresco, pois ele esquenta rapidamente no copo. Se for inverno, e o ambiente não estiver quente, pode-se servi-lo um pouco mais quente. De qualquer forma, para o meu gosto pessoal, eu degusto os vinhos tintos entre 15 e 16 graus, não mais do que isso. Primeiro, sente-se menos o álcool, não há predominância alcoólica como se fosse servido a 20-22 °C; portanto, há mais equilíbrio entre os diversos componentes e também uma melhor percepção da qualidade do vinho. Meu vinho tinto de verão por excelência? “Teor alcoólico não muito elevado, que não tenha uma grande estrutura tânica, bastante suave, mas, de qualquer forma, não banal, com uma personalidade que se expressa na elegância e no equilíbrio”.

O fenômeno dos tintos para serem servidos mais frios, no entanto, não é apenas italiano: do outro lado do oceano, fala-se abertamente de “chillable reds”, tintos suculentos para serem servidos frios que disputam com os brancos e os roses o título de vinho símbolo do verão. Nos Estados Unidos, observa-se uma verdadeira tendência em direção a tintos mais leves, ideais para a estação quente, escolhidos por se alinharem a um estilo de vida marcado por refeições leves, culinária vegetariana e menor consumo de álcool. Isso é demonstrado pela vinícola californiana Field Recordings, que produz o Freddo, um Sangiovese 100% concebido especialmente para ser servido em baixas temperaturas, em garrafa transparente, justamente para destacar sua natureza “verão” já desde a embalagem.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

FINE WINES: GIGANTE COM OS PÉS DE ARGILA

 Os antigos sistemas de avaliação de vinhos finos – medalhas, pontuações e resenhas anônimas – perderam força. O consumidor quer entender o valor real, não aquele determinado por um selo.

Por mais de um século, atuamos dentro de um contexto econômico tranquilizador e previsível: crescimento linear, endividamento em expansão, custos em alta e uma busca constante pelo consumo. Dentro desse ecossistema inflacionário, o setor de vinhos de luxo encontrou seu habitat ideal, aprendendo a falar uma linguagem composta por escassez artificial, classificações de excelência, barreiras à entrada e a produtos premium como dogma indiscutível. Mas e se todo esse castelo de crenças se apoiasse em fundamentos ultrapassados?

Recentemente a analista Priscilla Hennekam levanta uma questão tão incômoda quanto urgente: a tecnologia caminha em direção diametralmente oposta à inflação. A automação, a inteligência artificial e as plataformas digitais atuam estruturalmente para reduzir custos, otimizar a distribuição e gerar abundância. Assim, nos encontramos suspensos em um limbo instável, presos entre um sistema financeiro que precisa desesperadamente elevar os preços e uma força tecnológica subjacente que pressiona continuamente para reduzi-los.

O mundo dos FINE WINES não está imune a essa força gravitacional. Pelo contrário, corre o risco de ser arrastado por ela se continuar a usar códigos de comunicação de uma época que está desaparecendo.

O primeiro pilar a vacilar diante dos impactos da era da informação é a autoridade da competência. Historicamente, o mercado de vinhos de alta gama se estruturou em um modelo assimétrico: o especialista (o crítico, o sommelier, a instituição) detinha o conhecimento, e o consumidor final precisava ser “educado” para compreender o valor de uma garrafa. Hoje, o acesso ao conhecimento foi totalmente democratizado. Um usuário comum pode consultar um modelo de inteligência artificial e obter, em poucos segundos, uma análise comparativa sobre um Barolo ou um Borgonha, compreender o conceito de viticultura regenerativa ou entender as diferenças de microclima entre dois vinhedos, tudo isso em uma linguagem acessível e sem aquela arrogância acadêmica que muitas vezes afasta quem não é especialista no assunto.

Como destaca Hennekam, a tecnologia atua como um agente deflacionário sobre os dados: quando a informação se torna abundante, o valor se desloca para outro lugar. O problema atual não é mais saber onde encontrar um conceito, mas em quem se pode confiar. Em um mundo saturado de respostas imediatas, a confiança se torna o verdadeiro bem escasso, e os antigos sistemas de validação — medalhas, pontuações em centésimos e avaliações infalíveis — perdem progressivamente força diante de um consumidor que deseja compreender o valor real, e não aquele determinado por um selo.

O consumidor não raciocina em compartimentos estanque; ele vive sua vida e aloca seus recursos onde percebe uma forte conexão emocional. Na era da abundância, em que quase tudo é facilmente substituível ou replicável, o vinho não pode mais se dar ao luxo de ser dado como certo apenas por se autodefinir como “premium”. Muitas vezes os produtores demoram a entender que os vinhos finos não competem apenas com outras garrafas na prateleira ou em leilões: eles competem, em um sentido muito mais amplo, com todo o panorama das experiências e dos bens que definem a identidade contemporânea. Quem dispõe de um alto poder aquisitivo hoje avalia a compra de um grande vinho comparando-a com uma viagem, um tratamento de bem-estar, um acessório de alta costura, um festival de música ou um dispositivo tecnológico de última geração.

Se a escassez não é mais um valor absoluto — pois, aos olhos das novas gerações, corre o risco de parecer um conceito artificial e manipulado —, como pode sobreviver o conceito de vinho de alta gama? Para continuar relevante em um mundo potencialmente deflacionário, o vinho de excelência precisa deixar de vender status e começar a transmitir algo que a tecnologia não pode automatizar: a autenticidade do relacionamento, o vínculo irrepetível com um território e a capacidade de gerar uma emoção coletiva. Não se tratará mais de demonstrar que se sabe mais do que o próprio cliente, mas de ser capaz de criar uma experiência significativa que as pessoas desejem guardar e compartilhar. O futuro do setor pertence àqueles que souberem abandonar a retórica da exclusividade como fim em si mesma para abraçar a da relevância cultural.

domingo, 12 de julho de 2026

VINHO ROSE, MERCADO EM CRESCIMENTO: em 2032, o valor ultrapassará os 5 bilhões de dólares

Se, no mundo, “vinho rose” ainda é, acima de tudo, sinônimo de verão e da Provença (a ponto de, desde 2018, por iniciativa do Conseil Interprofessionnel des Vins de Provence, celebrar-se mundialmente o “International Rosé Day” toda quarta sexta-feira de junho — e, em 2026, no dia 26 de junho), a Itália responde com seus roses de diversas regiões e variedades de uvas, do Cerasuolo d’Abruzzo aos vinhos da Valtenesi, dos rosés da Puglia (onde nasceu, em 1943, o primeiro vinho rose engarrafado da Itália, o famosíssimo “Five Roses” de Leone de Castris, cujo museu da empresa acaba de entrar para a rede “Museimpresa”) até o Chiaretto de Bardolino, e ainda por muitas outras variedades que vão do Alto Adige à Sicília, passando por “novidades” mais ou menos recentes, como a versão rose do Prosecco DOC, por exemplo, até o “recém-lançado” Chianti DOCG na versão rose.  Os vinhos roses ainda são relativamente um produto de “nicho”, embora, segundo diversos estudos, representem 10% do consumo mundial (sendo a França o principal país produtor, à frente da Itália e dos EUA) e, em um contexto difícil e desafiador para o mercado do vinho, pareçam destinados a crescer graças à sua leveza (também em termos de teor alcoólico, geralmente inferior à média).

É o que afirma, pelo menos, o estudo sobre o tema realizado pela empresa de pesquisa ReAnIn, segundo o qual, se o mercado de vinhos roses movimentou 3,5 bilhões de dólares em 2025, ele crescerá 5,1% ao ano até 2032, ultrapassando os 5 bilhões de dólares; em particular, explica o relatório, embora o vinho rose continue muito associado ao verão, 30% dos consumidores de vinho o escolhem durante todo o ano, devido à sua versatilidade em harmonizações gastronômicas e ocasiões de consumo, mas também, justamente, porque é percebido como um vinho mais “leve e saudável”, a ponto de 28% dos consumidores preferirem-no a outros vinhos justamente por seu teor alcoólico mais baixo. E com 35% dos consumidores cada vez mais atentos à qualidade, ao artesanato e à origem regional, dando preferência a marcas da categoria premium.

terça-feira, 7 de julho de 2026

MAIS BRANCO E MENOS TINTO: COMO MUDA A PRODUÇÃO DE VINHO NA ESPANHA

O panorama do consumo de vinho está mudando, uma tendência já em voga há algum tempo, com os apreciadores de vinho se voltando, cada vez mais, para vinhos fáceis de beber, com menor teor alcoólico, e que, por consequência, se alinham à tendência da leveza na taça, que agrada cada vez mais e à qual os vinhos brancos, por suas características, se adaptam melhor do que os tintos. Uma mudança no consumo que está, consequentemente, repercutindo também na esfera produtiva, com o segmento dos vinhos brancos recuperando cada vez mais terreno, a ponto de superar, em alguns casos, os volumes dos vinhos tintos que, historicamente, sempre ocuparam a maior fatia do mercado. Uma “ultrapassagem” que já ocorreu também na Espanha, a terceira potência vinícola mundial depois da França e da Itália, e que vem se ampliando, representando um forte sinal proveniente de um país que está entre os “grandes” do vinho, terra de denominações de origem prestigiadas como Rioja, Ribera del Duero e Priorat, entre tantas outras.

De acordo com a Vinetur, o vinho branco representou 57% da produção vinícola espanhola até abril da safra 2025-2026, segundo dados analisados pela Organização Interprofissional do Vinho da Espanha (OIVE), um sinal de que a oferta vinícola do país continua se afastando dos tintos e dos roses. Durante um webinar, Begoña Olavarría, diretora do Departamento de Inteligência Econômica e Mercados, explicou que a participação do vinho branco aumentou quase 8 pontos em comparação a safra de 2017-2018. Os vinhos tintos e roses, somados, representam 42,9% da produção, com base nos dados da Infovi analisados pela organização.

A mudança ocorre em um momento em que o consumo de vinho na Espanha continua em declínio. A Oive explicou que o consumo em abril caiu 6,1% em relação ao mesmo mês de 2025, para 9,2 milhões de hectolitros, e que, embora o consumo de vinho branco tenha se mantido estável, o de vinhos tintos e roses diminuiu.

terça-feira, 30 de junho de 2026

PREVISÃO IWSR: O Consumo mundial de vinho vai diminuir de 14% até 2035

A empresa de pesquisa de mercado especializada em bebidas alcoólicas IWSR prevê uma queda de 14% no consumo global de vinho até 2035. Em um novo relatório, a empresa afirma que o consumo total de álcool diminuirá inicialmente até 2031. Posteriormente, haverá uma ligeira recuperação e o consumo se estabilizará em torno do nível de 2025. De acordo com as previsões, os destilados e a cerveja sofrerão o mesmo declínio que o vinho, enquanto as bebidas mistas prontas para beber, conhecidas como Ready-To-Drinks (RTD), apresentarão um aumento significativo.

Entre as razões para essas mudanças, a IWSR cita uma reavaliação do mercado mundial e um crescimento da população em idade legal para consumir álcool. Os mercados em crescimento particularmente interessantes são, portanto, Índia, Colômbia, Vietnã e México, enquanto na China, nos Estados Unidos, no Japão, na Alemanha e no Reino Unido o consumo de bebidas alcoólicas é significativamente menor. De acordo com as previsões, a Índia ultrapassará os Estados Unidos até 2032 e se tornará o segundo maior mercado de bebidas alcoólicas, atrás apenas da China.

Além disso, a IWSR publicou seus dados finais para 2025. Para isso, foram analisados os dados de 160 países. O consumo de vinho diminuiu 5% em relação ao ano anterior. Esse valor é quase o dobro do divulgado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) em seu relatório anual onde se registrava uma diminuição de 2%. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O VERDADEIRO PROBLEMA DO CONSUMO DE VINHO É O PREÇO, NÃO A GERAÇÃO Z

Os dados desmentem a narrativa de que a Geração Z é uma geração que não bebe: o número de jovens que consomem vinho está aumentando, e não diminuindo. Um painel de profissionais americanos e os dados italianos do Observatório UIV–Vinitaly 2026 apontam para outra direção: a queda estrutural no consumo de vinho depende da pressão sobre os preços, da erosão do poder de compra e, no mercado americano, do impacto das tarifas.

De acordo com os dados divulgados pela Gossip Wine (Millennials e Geração Z: o futuro do vinho em 2026) e confirmados pela Bighammer Wines (Tendências do Vinho 2026: o que realmente estamos observando no setor de compras), a porcentagem de jovens adultos da Geração Z que afirmam ter consumido vinho nos últimos seis meses passou de 46% em 2023 para 70% em 2025. Em apenas dois anos. O IWSR registra o mesmo aumento acentuado. O Wine Market Council acrescenta que a proporção de consumidores de vinho da Geração Z cresceu cinco pontos percentuais nos últimos dois anos. E os Millennials ultrapassou oficialmente a Geração Baby Boomer como principal grupo de consumo nos Estados Unidos, representando hoje 31% contra 26%.

Na Itália, o quadro é consistente. O Observatório UIV – Vinitaly 2026, que analisou os dados de consumo com base em informações do Istat e do IWSR e foi apresentado justamente na Vinitaly 2026, mostra que os consumidores de vinho em nosso país somam pouco menos de 30 milhões, o que representa 55% da população, com números estáveis nos últimos cinco anos e até mesmo em crescimento em relação a 2011. A surpresa? A faixa etária de 18 a 24 anos é a única que registrou um crescimento significativo em sua parcela de consumidores, com um aumento de oito pontos percentuais. Os jovens consumidores de vinho passaram de 39% para 47% dessa faixa etária.

Então, de onde vem essa narrativa de que a Geração Z não bebe mais vinho? De uma coincidência temporal que gerou um bode expiatório conveniente. A queda estrutural da demanda em muitos mercados ocidentais começou a se manifestar por volta de 2019, quando a Geração Z ainda era demograficamente irrelevante como força de consumo. O que está mudando, se é que há alguma mudança, é a forma de consumir. Os consumidores mais jovens compram menos garrafas, mas experimentam mais. A descoberta do vinho ocorre por meio das redes sociais e das experiências de viagem, e não por meio de revistas especializadas ou das notas dos críticos. Eles buscam histórias autênticas, práticas sustentáveis e formatos práticos. Uma nota 98 em 100 do Robert Parker vale menos do que um reel envolvente e uma vinícola que saiba se comunicar com transparência. O problema é que o setor ainda não se preparou adequadamente para encontrá-los onde eles estão.

Se a Geração Z não é o problema, então onde está o problema? Uma parte significativa da resposta está no preço. Alessandro Rossi, Gerente Nacional da Categoria Vinhos da Partesa, descreve com precisão o fenômeno em curso na Itália (“É assim que as escolhas dos italianos na taça estão mudando”: o panorama da Partesa sobre o consumo em 2025): “Confirmou-se a desaceleração do consumo e o fenômeno do ‘trading down’ em algumas ocasiões de consumo, já observado em 2024, principalmente devido a um poder de compra que continua sob pressão e a um clima de incerteza generalizada que ainda não se dissipou”. A pressão sobre o poder de compra não afeta apenas os jovens na faixa dos 20 anos: ela atinge famílias, consumidores habituais, toda aquela faixa intermediária que, até alguns anos atrás, comprava uma garrafa de 15 a 20 euros sem pensar muito e que hoje, ao contrário, pensa sim, e muito.

Os dados coletados pela Attest (Preços altos, porções pequenas: como a crise do custo de vida está prejudicando as vendas de bebidas alcoólicas) em dois mercados chave, o Reino Unido e os Estados Unidos, confirmam a tendência com uma severidade que não deixa margem para interpretações tranquilizadoras. No mercado americano, quase metade dos entrevistados afirma beber bebidas alcoólicas com menos frequência, 24% pararam completamente e 47% consideram a compra de bebidas alcoólicas uma prioridade baixa. Entre aqueles que estão reduzindo os gastos por garrafa, o principal motivo declarado é inequívoco: “Não tenho condições de gastar tanto quanto antes”.

Há ainda uma terceira dimensão do problema dos preços, específica do mercado americano, que diz respeito ao impacto das tarifas. A Bighammer Wines explica isso com clareza: o aumento afeta o preço na importação e, em seguida, sofre a margem de lucro do distribuidor e um acréscimo adicional por parte do revendedor ou do restaurante.

Três dinâmicas diferentes, portanto: poder de compra reduzido, percepção do preço como risco e efeito multiplicador das tarifas. 

É surpreendente notar como, nesse cenário, a Geração Z parece mais uma variável de esperança do que de crise. Eles são a geração que mais cresce em termos percentuais, entram no mercado com curiosidade e abertura, buscam experiências autênticas e estão dispostos a gastar quando se sentem incluídos e não julgados. O que eles exigem (preços acessíveis, hospitalidade genuína, comunicação sem esnobismo) é exatamente o que uma vinícola já deveria oferecer a qualquer consumidor.

A queda real no consumo tem várias causas: o envelhecimento dos consumidores habituais, a pressão econômica que restringe os gastos e a fragmentação em direção a outras bebidas. Mas quando as gerações mais velhas acusam as mais jovens de não entenderem de vinho e estas respondem da mesma forma, acaba-se discutindo sobre um bode expiatório em vez de lidar com o problema.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O VALOR DO VINHO NO AGROALIMENTAR ITALIANO

O setor agroalimentar italiano, verdadeira riqueza do “Made in Italy”, gerou, em 2025, 80,1 bilhões de euros em valor de produção, um aumento de 3,9% em relação aos 77,1 bilhões de 2024. Ao mesmo tempo, porém, também a balança comercial da agricultura e dos produtos alimentícios — e, portanto, a diferença entre o valor econômico das exportações e o das importações —, embora tenha diminuído significativamente em relação a 2024, permanece positiva, ultrapassando 2 bilhões de euros em 2025 (era de 5,4 bilhões de euros em 2024). E, embora o saldo comercial dos produtos agrícolas e pecuários permaneça historicamente negativo (-13,3 bilhões de euros em 2025), quem sustenta toda a balança agroalimentar nacional é a indústria de processamento de alimentos e, portanto, a rubrica “alimentos e bebidas”, cujo saldo comercial é positivo em 15,4 bilhões de euros — um valor apenas ligeiramente inferior ao de 2024 (15,8 bilhões de euros), o que demonstra que a queda anual adicional dos produtos agropecuários (quase 3 bilhões de euros entre 2024 e 2025) foi o que influenciou concretamente o resultado final do saldo comercial da agricultura e dos produtos alimentícios.

O vinho italiano, nesse contexto, desempenha um papel fundamental, sendo um produto totalmente voltado para a exportação e, obviamente, com grande apelo internacional. De acordo com os dados do Istat a balança comercial do vinho italiano em 2025 é de 7,2 bilhões de euros, resultado de 7,7 bilhões em exportações e 565,6 milhões de euros em importações. Portanto, segundo os cálculos, o vinho representa 46,7%, quase a metade, da rubrica “alimentos e bebidas”, que gera a balança comercial positiva do setor agroalimentar italiano.

Como destaca o Istat, na Itália, “de modo geral, desde a Unificação, o saldo comercial dos produtos agropecuários tem sido quase sempre negativo. No entanto, a Itália também é um país de transformação, e nos últimos quinze anos o setor industrial registrou saldos positivos crescentes, a ponto de levar, a partir de 2018, o saldo de todo o setor agroalimentar para o positivo”. Um resultado para o qual o vinho deu uma contribuição decisiva. Mais uma demonstração de que o vinho é um produto fundamental para o setor agroalimentar italiano, que constitui um recurso para as exportações e para a economia nacional.

terça-feira, 16 de junho de 2026

CHIANTI DOCG AGORA NA VERSÃO ROSÉ

Olhar para o futuro sem perder de vista a história: não mais apenas tinto, o Chianti DOCG passa a ser também rose. 

Desde sempre, quando se pensa nas inúmeras nuances da cor vermelha, pensa-se também naquela expressa pela região do Chianti; e isso porque, graças ao seu produto símbolo — que contribuiu para levá-la à notoriedade internacional —, o vinho, o Chianti tornou-se um ícone cromático de estilo em muitos outros contextos. O vermelho Chianti, assim como o vermelho Bordeaux, conquistou admiradores e encontrou aplicações tanto na moda quanto na decoração, apenas para citar alguns exemplos; uma cor “certificada” que se identifica com um território, um “status” que apenas os maiores podem ter. Quando se fala em Chianti, fala-se em vinho e, portanto, em tinto; um “fio condutor” — já que estamos falando do assunto — inabalável que faz do Chianti DOCG a maior e mais “popular” denominação entre os tintos da Toscana, uma “galáxia” de 2.200 produtores, mais de 13.600 hectares e 75 milhões de garrafas vendidas a cada ano.

A família do Chianti DOCG agora dá as boas-vindas a mais um membro, pois a sociedade muda e, consequentemente, o mercado também muda. Assim, ao lado dos tradicionais tintos, a denominação se enriquece com o rosé: o Chianti Rosé DOCG está pronto para conquistar as taças dos apaixonados por vinho. Uma novidade promovida pelo Consórcio do Vinho Chianti, liderado por Giovanni Busi, fruto do novo disciplinar de produção, aprovado pelo Ministério da Agricultura e publicado no Diário Oficial. Trata-se da atualização mais significativa dos últimos anos, no âmbito do processo iniciado pelo Consórcio do Vinho Chianti em 2020 para adequar a denominação à evolução do setor.

O Chianti Rosé DOCG “é uma nova categoria concebida para ampliar a oferta da denominação em um segmento em constante crescimento no mercado italiano e nos mercados internacionais”, explicou o Consórcio que também anunciou o reforço das fiscalizações para garantir a transparência e a proteção dos consumidores. Passa a ser obrigatório a obtenção do certificado de conformidade do Órgão de Fiscalização antes da transferência dos lotes de Chianti e Chianti Superiore destinados à comercialização. Além disso, é exigida a notificação prévia ao mesmo órgão para a transferência de vinho novo ainda em fermentação destinado à DOCG.

“Essas mudanças representam o equilíbrio entre identidade e inovação — comentou Giovanni Busi, presidente do Consórcio do Vinho Chianti —, por um lado, continuamos a defender os elementos que fizeram do Chianti um dos vinhos italianos mais conhecidos no mundo; por outro, introduzimos ferramentas que permitem às empresas enfrentar com maior eficácia os desafios do mercado e das mudanças climáticas. O novo Rosé nos permite entrar em um segmento em expansão, ainda mais em um período específico como o verão, em que normalmente o Chianti sofre uma desaceleração natural nas vendas. Este novo regulamento é o resultado de um trabalho conjunto com a cadeia produtiva, que olha para o futuro sem abrir mão da nossa história”

sexta-feira, 12 de junho de 2026

EXPORT VINHO ITALIANO: NO PRIMEIRO TRIMESTRE 2026 LIDERAM VENETO, PIEMONTE E TOSCANA

As exportações de vinho italiano no primeiro trimestre de 2026 atingiram 1,7 bilhão de euros e ainda estão muito aquém dos valores de 2025, em comparação com o mesmo período (-8,2%), no entanto, apresentam uma clara recuperação em relação aos dois primeiros meses do ano em curso, o que, pelo menos, dá motivos para um cauto otimismo. A influenciar o balanço, ainda provisório, foram, obviamente, os resultados provenientes de cada região, onde a evolução não parece ser uniforme. 

A “locomotiva” das exportações de vinho italiano, segundo os dados elaborados pelo Istat (istituto Italiano di Statistica) continua sendo o Veneto, a terra natal do Prosecco, dos vinhos da Valpolicella, do Soave e do Pinot Grigio delle Venezie, entre outros, com 621,4 milhões de euros, uma queda de 9,7% em relação ao primeiro trimestre de 2025, à frente do Piemonte (que, em comparação com os dados finais de 2025, ultrapassou a Toscana), uma das notas mais positivas, com a terra do Barolo e do Barbaresco, da Barbera d’Asti e da Alta Langa, do Gavi e do Asti, entre outros, capaz de apresentar uma melhora em relação ao primeiro trimestre de 2025 (+0,5%), registrando 255,2 milhões de euros. Fechando o pódio está a Toscana, terra do Chianti Classico e Bolgheri, do IGT Toscana e do Chianti, da Maremma e do Brunello di Montalcino, do Vino Nobile di Montepulciano e da Vernaccia di San Gimignano, totalizando 251,6 milhões de euros (-8,3%). Veneto, Piemonte e Toscana, somados, atingem 1,1 bilhão de euros em valor de exportação e respondem por 66% das remessas de vinhos nacionais para mercados do mundo inteiro. 

4º lugar para o Trentino-Alto Ádige/Südtirol, terra de grandes vinhos brancos e do Trentodoc, entre outros, com 124,5 milhões de euros (-18,2%), à frente da Emília-Romagna, do Lambrusco e do Sangiovese di Romagna, entre outros, com 95,7 milhões de euros (+2,3%), região que registra um desempenho significativo, e da Lombardia, terra do Franciacorta, do Oltrepò Pavese e de outras excelências, com 72,1 milhões de euros (-1,3%).

Também se destacam a Puglia, com o Primitivo, entre outros, com 61,7 milhões de euros (+4,9%), e o Friuli-Venezia Giulia, com 56,1 milhões de euros (+2,8%), região famosa pelos grandes vinhos brancos do Collio e pelo seu Friulano que “foi Tocai”, apenas para citar alguns, enquanto o Abruzzo sofre uma queda mais significativa (-10,9%), para 54,5 milhões de euros, na terra cujas colinas dão origem a vinhos como o Montepulciano d’Abruzzo, o Trebbiano e o Cerasuolo. Fechando o “top 10”, estável, está a Sicília, com 37,9 milhões de euros (+0,1%), região que figura entre as pérolas do vinho italiano, com seus muitos territórios emblemáticos, desde o “diamante” Etna até Vittoria, de Menfi a Noto, de Marsala a Pantelleria.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

FRANÇA: SE CONSOME MAIS CERVEJA QUE VINHO

 Pela primeira vez na história moderna, o consumo de cerveja na França ultrapassou o de vinho. Uma ultrapassagem simbólica que reflete profundas mudanças nos hábitos sociais, no poder de compra e nas preferências das novas gerações, obrigando o prestigiado setor vinícola francês a enfrentar uma crise de identidade sem precedentes. Embora tecnicamente modesto em termos de volume, este dado tem um impacto simbólico avassalador. Os números oficiais da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) e da associação Brasseurs de France são claros: no ano passado, os franceses beberam 22,1 milhões de hectolitros de cerveja contra 22 milhões de hectolitros de vinho.

Isso não é apenas uma estatística, mas o reflexo concreto de uma metamorfose cultural e geracional que vem ocorrendo no país há várias décadas, agora acelerada por uma conjuntura econômica e climática decididamente complexa.

Na França, o vinho nunca foi apenas uma bebida; é um elemento identitário, um símbolo de convívio indissociável da gastronomia. No entanto, a queda constante no consumo — que atingiu o nível mais baixo dos últimos 70 anos — reflete uma mudança nos estilos de vida.

Os jovens franceses, em particular, parecem ter se afastado da tradição do vinho, por vezes visto como um produto para “conhecedores” ou adequado apenas para jantares formais. Por outro lado, a cerveja, graças a uma proposta mais informal, preços frequentemente mais acessíveis e uma oferta crescente de cervejas artesanais, conquistou as esplanadas dos cafés e os momentos de convívio descontraído, especialmente em contextos alheios à refeição tradicional. A isso se soma a ascensão das cervejas sem álcool, que registraram um salto de 12% nas preferências, acompanhando a tendência global de maior moderação no consumo de álcool.

O setor vinícola francês, embora continue sendo o segundo maior produtor mundial, encontra-se entre a cruz e a espada. Por um lado, a mudança nos hábitos domésticos — com menos tempo dedicado às refeições sentadas e uma redução no tamanho das famílias, o que torna menos prático abrir uma garrafa inteira —; por outro, as dificuldades estruturais. 2025 foi um ano extremamente complicado para a França:

  1. Volatilidade climática: geadas, chuvas excessivas e secas reduziram a produtividade dos vinhedos, deixando o setor em uma luta constante contra a natureza.
  2. Crise das excedências: a oferta, em alguns segmentos como os tintos AOC, superou a demanda, levando o governo francês a financiar um programa drástico de extirpação de vinhedos, com quase 28 mil hectares destinados a serem eliminados, uma medida que já afetou duramente regiões históricas como Bordeaux.
  3. Comércio global: as tensões em torno das tarifas — especialmente com os Estados Unidos — e a incerteza relacionada aos cenários geopolíticos estão dificultando as exportações, que continuam sendo um dos pilares da economia vitivinícola nacional.
Apesar desse “terremoto” cultural, o vinho francês não está desaparecendo; está se adaptando. John Barker, diretor-geral da OIV, destaca que o setor está buscando novos caminhos por meio do enoturismo, da sustentabilidade e da inovação, rumo a produtos com menor teor alcoólico.

Enquanto países como Portugal, Brasil e Japão apresentam um crescimento no consumo, a França se vê diante de um momento de profunda reflexão. O desafio não é apenas comercial, mas também de identidade: será que a terra do vinho conseguirá manter intacto seu encanto em uma sociedade que, cada vez mais, exige respostas mais simples, imediatas e acessíveis?

terça-feira, 9 de junho de 2026

CARTAS DE VINHOS SOFISTICADAS: MUITO ESTATUS, POUCA ALMA

As cartas de vinhos dos restaurantes "estrelados" muitas vezes revelam menos identidade do que prometem. Entre grandes casas vinícolas, alocações, distribuição e medo do risco, muitas cartas acabam se parecendo. O problema não é a presença dos grandes nomes, mas sim quando o status substitui o pensamento, a narrativa e a relação real entre o vinho, a cozinha e o cliente.

A análise de Sara Danese, intitulada “I Looked at 1,000 Wine Lists. The Data Says the State of Fine Wine is Boring and Overpriced”, após o estudo de 1.063 cartas de vinhos de restaurantes com estrelas Michelin, retrata um panorama bastante claro: nos locais onde o vinho deveria brilhar, muitas vezes ele acaba ficando comportado, arrumadinho, caríssimo e um pouco previsível. Krug e Dom Pérignon aparecem em 42% das cartas analisadas. Entre os produtores mais presentes, encontram-se Château d’Yquem, Gaja, Bollinger, Louis Roederer, Sassicaia, Château Margaux, Ruinart, Domaine Leflaive, Mouton Rothschild, Vega Sicilia, Domaine de la Romanée-Conti e Haut-Brion.

Todos nomes de peso. Garrafas que fizeram história. Ninguém em sã consciência questionaria a grandeza do Krug. Mas fica uma pergunta: por que as cartas dos restaurantes mais ambiciosos do mundo acabam se parecendo tanto?

A resposta mais fácil é culpar o cliente. Ele quer uma marca conhecida, uma garrafa confiável, um rótulo que não exija explicações. É verdade. Mas essa interpretação deixa de lado o aspecto mais interessante: a distribuição. Uma carta de vinhos é também o resultado da disponibilidade, das alocações, das relações comerciais, do portfólio, dos importadores e das condições de compra. A poesia do terroir, mais cedo ou mais tarde, passa por uma planilha do Excel. E é aí que ela perde um pouco do seu aroma.

Certos vinhos não se compram simplesmente porque o sommelier os quer. Eles são conquistados. E, para conquistá-los, muitas vezes é preciso aceitar um sistema de trocas: você compra algumas garrafas, coloca outras na carta de vinhos, garante a rotatividade de certos produtos e, talvez, consiga o que realmente lhe interessa.

Quer aquele champanhe de um pequeno produtor que deixaria o sommelier encantado? Primeiro, abra espaço para a grande casa. Quer algumas garrafas de um Borgonha raro? Precisa provar que aquele vinho é útil para o restante do portfólio. Quer manter certas alocações? Alguns rótulos precisam permanecer visíveis, mesmo que vendam pouco.

Muitos cartas de restaurantes "estrelados" parecem entediantes também porque o sistema torna o tédio vantajoso. A inovação, por outro lado, exige esforço, relacionamentos e alguns riscos comerciais. 

Uma das observações mais relevantes do artigo de Danese diz respeito justamente à diferença entre presença e vendas. Alguns grandes fabricantes estão presentes em todos os lugares, mas, segundo vários depoimentos, podem representar uma parcela mínima das vendas efetivas. Isso só parece estranho à primeira vista. Certas garrafas não estão na carta apenas para enfeite, mas também para transmitir uma mensagem. Elas transmitem prestígio ao cliente, enquanto ao mercado indicam que o restaurante atua em uma determinada categoria.

Uma carta de vinhos com Krug, Dom Pérignon, DRC, Sassicaia, Yquem e alguns châteaux de Bordeaux transmite imediatamente uma sensação de solidez. Talvez o cliente acabe pedindo outra coisa. Talvez essas garrafas fiquem na prateleira por meses. Mas, enquanto isso, elas cumprem seu papel.

O problema surge quando o status substitui a identidade.

Vender Dom Pérignon é fácil. O cliente conhece o nome, entende o que representa e se sente seguro. Vender um champanhe de uma pequena casa é outra história: é preciso explicá-lo, contextualizá-lo e servi-lo no momento certo. Isso exige presença na sala e uma cozinha capaz de dar sentido a ele.

Há ainda um equívoco a esclarecer: o restaurante "estrelado" não se destina apenas aos clientes habituais de alto poder aquisitivo. Muitas vezes, é também o local ideal para uma experiência anual, um aniversário especial, uma data comemorativa ou um jantar agendado após uma boa reflexão. Nesse contexto, o cliente entra para viver uma experiência. E é justamente aí que faria sentido encontrar alternativas inteligentes, garrafas capazes de abrir novas possibilidades, escolhas que proporcionem prazer sem obrigar ninguém a ligar para o contador entre a entrada e o primeiro prato.

O preço, por sua vez, complica tudo. Um cliente que entra em um restaurante com estrelas sabe que não está em uma trattoria e sabe que aquele restaurante tem custos enormes: equipe, salão, cozinha, pesquisa, adega, serviço. Ninguém espera uma carta de vinhos barata. No entanto, uma lista composta apenas por rótulos conhecidos expõe o restaurante a um problema evidente: o cliente conhece esses nomes, talvez tenha pesquisado o preço online, talvez os tenha encontrado em uma loja de vinhos ou em outros estabelecimentos. A comparação é imediata e, muitas vezes, dolorosa.

As etiquetas menos conhecidas, se bem escolhidas e bem apresentadas, podem abrir um espaço diferente. Elas são menos comparáveis, menos pressionadas pelo preço “real” que o cliente pensa conhecer, e têm mais liberdade para serem avaliadas dentro da experiência do restaurante. É claro que isso requer confiança. Requer um sommelier capaz de explicar e uma carta de vinhos pensada para harmonizar.

Resumindo, uma carta de vinhos deve ser uma declaração de intenções. Ela deveria revelar quem você é, para onde deseja levar o cliente e qual é a sua visão sobre a relação entre vinho e culinária.

Se nos restaurantes onde o vinho deveria se expressar da melhor forma possível encontramos frequentemente os mesmos produtores, as mesmas regiões, os mesmos preços elevados e as mesmas garantias, a responsabilidade é compartilhada. Pesam a distribuição, as alocações, as expectativas dos clientes e o papel das grandes marcas. E, além disso, as escolhas dos chefs e sommeliers são importantes, pois mesmo dentro de um sistema condicionado sempre há espaço para decidir que experiência criar.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

ITÁLIA: quais as medidas para intervir no desequilíbrio entre oferta e demanda de vinhos

 A UIV (Unione Italiana Vini), que reuniu na quinta-feira, 4 de junho, o Conselho Nacional em Soave (Verona), acaba de aprovar um pacote de propostas para a contenção da produção de vinho a nível nacional. Trata-se de medidas de curto e médio prazo que a Uiv quis colocar no papel, na esperança de que sejam discutidas na próxima reunião geral sobre Vinho no Masaf (Ministério dell'Agricultura, della Sovranità Alimentare e delle Foreste).

A UIV, que também se reuniu com a direção da Federdoc, elogiou o «senso de responsabilidade já demonstrado por vários consórcios que, nestes dias — como lembrou o presidente Frescobaldi — estão trabalhando para conter os rendimentos. Entre estes, destaca-se o caso de Franciacorta, que solicitou e obteve do Masaf a limitação das autorizações de plantio em toda a região».

De quais medidas concretas estamos falando?

Entre as medidas mais urgentes, segundo a UIV, para corrigir o desequilíbrio entre oferta e demanda, estão a suspensão temporária de novas autorizações de plantio e a redução dos rendimentos de produção, incluindo os vinhos DOP e IGP. É necessário também atualizar os disciplinares de produção e revisar os limites de rendimento para os vinhos genéricos, com um sistema de sanções mais eficaz e uma regulamentação mais rigorosa das reclassificações entre denominações. De acordo com o Observatório UIV, em abril as vinícolas italianas registraram um aumento nos estoques de +7,6% em relação ao mesmo período de 2025, com os preços a granel das principais DOP-IGP em queda de 7%. «Esta desaceleração do mercado – escreve a Uiv – é agravada pelo desempenho nos mercados externos, que, após um 2025 em contração (-3,7% no valor total em relação a 2024), encerram também o primeiro trimestre de 2026 com o mercado fora da UE estagnado em -11%».

No documento aprovado pelo Conselho Nacional, foram excluídos planos generalizados de extirpações de vinhedos, considerados «ineficazes e prejudiciais, sobretudo para as regiões montanhosas e de colinas». No médio a longo prazo, a Uiv solicita a elaboração de um plano estratégico nacional para os próximos 5 a 10 anos, com o objetivo de “adequar a produção à demanda real e fortalecer a competitividade do vinho italiano nos mercados nacionais e internacionais”.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

ESPUMANTES - Mercado global em transição

 O mercado global de espumantes está passando por uma fase de transformação estrutural que o afasta cada vez mais do papel de bebida associada exclusivamente a celebrações, inserindo-o de forma definitiva entre os produtos de consumo premium do dia a dia. De acordo com as estimativas mais recentes, o valor atingiu 49,85 bilhões de dólares em 2025 e poderá chegar a 69,21 bilhões até 2032, com uma taxa média de crescimento anual (CAGR) de 4,8%.

Nesse contexto, os espumantes representam, há anos, o segmento mais dinâmico do setor vinícola, muitas vezes o único capaz de registrar crescimento no consumo diante de uma retração geral dos demais tipologias. Uma tendência evidente também na Itália, onde o crescimento já não se limita apenas ao Prosecco, mas se estende a uma gama cada vez mais ampla de denominações, incluindo as produzidas pelo Método Clássico que apresentam um desempenho particularmente dinâmico tanto no mercado interno quanto nas exportações. É o que aponta a Maximize Market Research (MMR) no relatório “Dimensão do mercado de vinho espumante – Avaliação da estrutura do setor, análise dos fatores que impulsionam a demanda, análise e identificação do crescimento regional, revisão do posicionamento competitivo e previsões da dimensão do mercado global até 2032”, segundo o qual, impulsionando essa evolução, estão diversos fatores convergentes, entre os quais a sazonalidade do consumo, a crescente demanda por produtos de alta gama, a expansão dos canais digitais e uma transformação nos hábitos de consumo que coloca o vinho espumante como protagonista também em aperitivos, coquetéis e consumo doméstico, em linha com uma mudança mais ampla do mercado de bebidas em direção a experiências de qualidade e acessibilidade generalizada.

O crescimento é, de fato, impulsionado pela expansão da chamada “premiumização”, um fenômeno que está redesenhando todo o setor e também a forma como as marcas posicionam o champanhe, o prosecco, o cava, o crémant e outros tipos de espumantes: os consumidores demonstram um interesse crescente pela origem dos produtos, pela narrativa da marca, pela distinção entre safras, pela viticultura orgânica e sustentável, pelas produções de baixa intervenção e pelas Cuvées de alta gama, levando o mercado a se desvincular definitivamente dos ciclos de consumo ligados às festas para se alinhar a um modelo mais amplo de consumo experiencial, transparente e integrado ao estilo de vida premium. Ao mesmo tempo, a ampliação da oferta e a presença de diferentes faixas de preço tornam essa categoria acessível a um público mais amplo, favorecendo um crescimento ao longo de todo o ano.

Do ponto de vista estrutural — continua a Mmr —, o setor se articula por tipos de produto, canais de distribuição e áreas geográficas: entre os produtos, destacam-se o Cava, o Champagne, o Crémant, o Prosecco e outros vinhos espumantes, enquanto os principais canais incluem supermercados e hipermercados, lojas especializadas e o canal on-trade. Nesse contexto, o Champagne se confirma como segmento-chave da premiumização, com um crescimento previsto em torno de 4,5% ao ano, graças a estratégias de marketing de alto nível, relações diretas com os clientes, valorização das safras e posicionamento orientado para a sustentabilidade. Os sinais da demanda premium concentram-se em safras raras, sustentabilidade ambiental, acessibilidade impulsionada pelo Prosecco e consumo ligado também à prática de presentear.

A digitalização desempenha um papel decisivo: o comércio eletrônico e os modelos diretos ao consumidor permitem que os fabricantes fortaleçam o relacionamento com os clientes, ampliem a distribuição e melhorem o posicionamento das marcas, enquanto ferramentas como boletins informativos, vendas online e interação digital estão redefinindo a relação entre fabricante e consumidor final. A embalagem também representa uma nova fronteira estratégica: destacam-se garrafas mais leves, materiais recicláveis, sistemas de engarrafamento sustentáveis, rótulos inteligentes e soluções avançadas de rastreabilidade. Em um mercado fortemente influenciado pelos elementos visuais da marca, a embalagem sustentável torna-se não apenas uma exigência ambiental, mas também um fator de valorização, capaz de atrair consumidores mais jovens, varejistas modernos e distribuidores voltados para a exportação.

Do ponto de vista geográfico, a Europa continua sendo o centro do mercado global, com Itália, França, Alemanha e Espanha que, juntamente com os Estados Unidos, representam 80% da produção mundial: a Itália lidera com 27%, seguida pela França com 22%, pela Alemanha com 14% e pela Espanha com 11%, enquanto os Estados Unidos contribuem com 6%. A produção global atingiu 2,5 bilhões de garrafas, com um aumento de quase 56% nos últimos 20 anos, e o vinho espumante representa hoje pouco menos de 8% da produção mundial de vinho.

No que diz respeito à demanda, os Estados Unidos continuam sendo o principal mercado de importação em valor, impulsionado pela segmentação premium, pelo varejo digital e pelo consumo ligado a eventos e à restauração de alto padrão, enquanto o Reino Unido está entre os principais importadores em volume, juntamente com os EUA, com 180 milhões de garrafas cada. A Alemanha continua sendo o maior consumidor global e um importante produtor, enquanto mercados asiáticos como Japão, Coreia do Sul, China e Índia estão emergindo como áreas estratégicas, impulsionados pelo crescimento da renda, pelo consumo premium e pela expansão do canal digital e da hospitalidade de alto padrão.

“O mercado de vinhos espumantes está passando de uma categoria associada a celebrações para uma plataforma de consumo premium ligada ao estilo de vida. O sinal de crescimento mais importante não é apenas o aumento do consumo, mas a forma como este está mudando. Os consumidores buscam vinhos espumantes que combinem origem, ocasiões de consumo, descoberta digital, sustentabilidade e experiência premium. As empresas que investirem em cadeias de abastecimento inteligentes, no envolvimento direto dos consumidores, em práticas sustentáveis nas vinhas e em uma narrativa diferenciada do produto estarão melhor posicionadas para capturar valor até 2032”, conclui Siddhi Dole, gerente de pesquisa da Maximize Market Research


quinta-feira, 28 de maio de 2026

O MUNDO DO VINHO MIRA PARA O EQUILÍBRIO ENTRE PRODUÇÃO E CONSUMO

O setor vitivinícola mundial continua passando por uma fase de transformação estrutural. Em 2025, a superfície plantada com vinhedos diminuiu pelo sexto ano consecutivo, enquanto a produção, o consumo e o comércio internacional continuam sob pressão em um contexto marcado pelas mudanças climáticas, incertezas econômicas e mudanças nos hábitos dos consumidores. No entanto, a Itália e a França continuam sendo líderes em produção, exportação e consumo (superadas, neste último caso, pelos Estados Unidos, enquanto a Espanha mantém o recorde de maior superfície plantada).

As informações acima fazem parte do relatório sobre a “Situação do setor vitivinícola mundial” de 2025, apresentado poucos dias atrás em Lyon pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). De acordo com as últimas estimativas, a área mundial plantada totalizou 7 milhões de hectares, uma queda de 0,8% em relação a 2024. Essa redução reflete o ajuste progressivo da capacidade produtiva por parte dos principais países vitícolas de ambos os hemisférios, que enfrentam uma demanda mais fraca e mercados cada vez mais instáveis. A produção mundial de vinho também permanece em níveis historicamente baixos. Estima-se que, em 2025, ela chegue a 227 milhões de hectolitros, apenas 0,6% a mais do que o mínimo registrado em 2024. As condições climáticas continuam, de fato, a afetar fortemente as colheitas: secas, eventos extremos e forte variabilidade meteorológica limitaram a produtividade em várias regiões vitivinícolas. A isso se somam as decisões de algumas regiões de reduzir voluntariamente a produção para conter os excedentes e sustentar o mercado.

No que diz respeito à demanda, o consumo mundial de vinho está estimado em 208 milhões de hectolitros, o que representa uma queda de 2,7% em relação ao ano anterior. Uma tendência que confirma a evolução em curso nos mercados maduros, onde mudam os estilos de vida, os hábitos sociais e as preferências das novas gerações. Também pesam a inflação e a desaceleração econômica, que reduziram o poder de compra dos consumidores. Nesse cenário, alguns mercados se destacam, no entanto, por seu dinamismo. Portugal, Brasil e Japão estão entre os países que, em 2025, registraram um crescimento no consumo, juntamente com algumas regiões da Europa Central e Oriental.

O comércio internacional também enfrenta dificuldades. As exportações mundiais de vinho caíram para 94,8 milhões de hectolitros (-4,7%), enquanto o valor total das transações comerciais diminuiu para 33,8 bilhões de euros (-6,7%). Apesar da contração, os valores continuam, no entanto, acima dos níveis registrados antes da pandemia. O que está travando o comércio é, sobretudo, a desaceleração da demanda global, as tensões comerciais e as incertezas relacionadas às políticas tarifárias, em particular no mercado norte-americano. Os Estados Unidos, o maior mercado mundial em termos de valor de importações, viram as compras de vinho estrangeiro caírem para 5,5 bilhões de euros, o que representa uma redução de 12% em relação a 2024. 

Apesar do panorama complexo, o mercado global de vinhos parece hoje estar substancialmente em equilíbrio. Pelo terceiro ano consecutivo, de fato, a produção mundial permanece relativamente baixa, o que contribui para limitar o acúmulo de estoques. A diferença entre produção e consumo em 2025 está estimada em cerca de 18,7 milhões de hectolitros, mas esse dado deve ser interpretado levando em conta também os usos industriais do vinho — desde a destilação até a produção de vinagre, passando pelos produtos derivados e pelas bebidas destiladas —, que absorvem, em média, cerca de 30 milhões de hectolitros por ano. Um equilíbrio frágil, portanto, mas que, por enquanto, permite ao setor evitar desequilíbrios mais profundos num contexto internacional ainda marcado por forte volatilidade.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

VINHAS VELHAS: MITO OU GARANTIA DE QUALIDADE?

“Vinhas velhas” nos faz pensar em uma vinícola familiar, tradição e sustentabilidade, profundidade e complexidade. As inscrições no rótulo sugerem um vinho excepcional. Mas será que é isso mesmo?

Um estudo da California State University demonstra que os vinhos rotulados como “Old Vines” tendem a ter preços mais altos, mesmo que as diferenças objetivas de qualidade sejam, por vezes, mínimas. Além disso, ainda não existe uma definição legal do que isso significa. Do ponto de vista alemão e francês, por exemplo, a faixa etária das videiras entre 30 e 50 anos produzem excelentes resultados em termos de qualidade do vinho, antes que a qualidade comece, em média, a declinar. Para a Historical Vineyard Society, por outro lado, na Califórnia, com seu clima equilibrado — pelo menos até as mudanças climáticas —, uma videira com menos de 50 anos não é considerada velha, pois as videiras ainda podem ter décadas pela frente. Por isso, em 2024, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) emitiu uma recomendação para o registro legal de vinhas velhas. No entanto, o esforço administrativo necessário seria enorme. Como iniciativa de preservação, o blogueiro Alder Yarrow lançou o banco de dados gratuito “Old Vine Registry” como um centro de registro mundial, que agora contém mais de 10.000 registros de vinhedos com pelo menos 35 anos.

No entanto, hoje em dia qualquer rótulo pode ostentar a menção “Vinhas Velhas”, independentemente da idade das videiras. As vinhas velhas não produzem automaticamente vinhos melhores. Isso vale sobretudo para o material genético de baixa qualidade das videiras e para as variedades de uva de qualidade limitada, que muitas vezes são cultivadas de forma pouco cuidadosa no vinhedo. Uma videira produzida em série em uma zona pobre, cuja biologia do solo foi prejudicada por muitas pulverizações e máquinas pesadas, não produz um bom mosto, independentemente da idade das videiras. E ainda menos se for proveniente de rendimentos excessivos e se tiver sido otimizada com produtos químicos na adega.

Porém, se o vinhedo for cuidado de maneira ideal, com o passar dos anos surgem muitas vantagens para os viticultores: em boas localizações, as vinhas velhas criam raízes profundas, alcançam muitas camadas complexas do solo e micronutrientes, e apresentam menor vigor. A relação entre folhagem e frutos é favorável. Com o passar dos anos, os viticultores observam uma diminuição nos níveis de açúcar e nos rendimentos, a fase de maturação se prolonga, os bagos permanecem menores e os extratos aumentam. Os vinhos tornam-se assim mais leves, mais minerais, mais complexos e, nos melhores casos, expressam um terroir forte, com mais requinte, equilíbrio e profundidade. As próprias videiras tornam-se mais resistentes aos fatores de estresse, especialmente à seca, o que garante a sobrevivência dos viticultores em algumas regiões e assegura um rendimento constante em outras áreas de cultivo.

As vinhas velhas contam histórias sobre o solo, a encosta e o trabalho dos viticultores, que muitas vezes se consideram enraizados no trabalho de gerações e veem o vinhedo como um bem cultural. Mas quase nenhum guia ou carta de vinhos lista as “vinhas velhas” como categoria. Apenas a África do Sul autorizou um selo oficial para vinhos provenientes de vinhas velhas. Sob o antigo monopólio estatal, todas as plantações foram registradas a partir de 1920. De acordo com um estudo realizado com compradores de vinho sul-africanos, no entanto, nem mesmo metade deles considera que o rótulo seja um indicador importante de qualidade. Uma pesquisa realizada pelo site “Wine Opinions” apresentou resultados semelhantes: apenas 34% votaram em “vinhas velhas” como indicador de qualidade. Ironia do destino, a menção “vinhedo histórico” obteve 45%. Como era de se esperar, os representantes da associação californiana declararam recentemente, por ocasião da Old Vine Conference, que mesmo os apreciadores de vinho interessados no vinhedo não conseguiam distinguir as videiras retorcidas e centenárias das plantas jovens em estrutura metálica.

Os consumidores aceitariam preços mais altos se tivessem mais informações? Além do significado histórico-cultural, que não se traduz em vantagens para os apreciadores na taça, é aqui que reside o verdadeiro valor agregado: em termos de atratividade sensorial, os vinhos provenientes de vinhas velhas cultivadas com precisão se destacam em relação à maioria de seus equivalentes.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

REESTRUTURAÇÃO EM BORDEAUX DOS VINHEDOS EXTIRPADOS

Um fundo inicial de 20 milhões de euros para redesenhar e valorizar o futuro dos vinhedos afetados pelo plano de extirpação, oferecendo assim novas perspectivas aos viticultores que, no Departamento da Gironda — cujo principal centro é Bordeaux —, estão passando por uma fase complicada: basta pensar que, de 2023 a 2025, a área dos vinhedos da Gironda diminuiu em 20.000 hectares, com um novo plano de extirpação já anunciado. Trata-se da iniciativa “Foncier d’avenir en Gironde”, um programa piloto lançado pelo Governo francês e pelo Conselho Regional, em consulta com as organizações profissionais do setor agrícola, a Agência de Desenvolvimento Territorial da Nova Aquitânia, as Câmaras de Comércio, os bancos parceiros (que desempenham um papel central, financiando 14 dos 20 milhões de euros) e as autoridades locais, que visa enfrentar os desafios atuais do setor vitivinícola da Gironda, promovendo também o desenvolvimento de projetos individuais e coletivos de diversificação agrícola, e que se insere em uma abordagem mais ampla de reestruturação dos vinhedos, combate ao abandono das terras e apoio às transições econômicas e ambientais.

Nos últimos dias, foi publicado no site da Prefeitura da Gironda um edital de manifestação de interesse (inscrições abertas até 7 de junho de 2026) com o objetivo de identificar os proprietários de vinhedos no departamento que desejam vender terrenos baldios resultantes da extirpação de vinhedos ou vinhedos que serão arrancados em 2026, bem como eventuais estoques de vinho destinados à destilação associados a tais terrenos. Tudo isso com o objetivo de identificar as áreas prioritárias de intervenção junto ao Comitê Diretor do programa, que definirá as prioridades de aquisição para atingir os objetivos estabelecidos. Um plano que surgiu porque, apesar de todos os esforços, o reequilíbrio entre oferta e demanda ainda dependerá da extirpação. Mas, por outro lado, a disseminação dos “vinhedos em repouso” é vista como um risco para a saúde das plantas e, consequentemente, para a propagação da flavescência dourada, o principal perigo. Mas há outra consideração que foi mencionada, a saber, que as operações de arranque foram realizadas de forma irregular, com consequente fragmentação do sistema de parcelas, um fato que não favorece o desenvolvimento de projetos de diversificação estruturados.

A lógica de intervenção do programa experimental de reestruturação fundiária baseia-se na aquisição ou na troca de parcelas, principalmente vinhedos extirpados, com base nos preços de mercado, e na aquisição de estoques de vinho associados às parcelas e destinados à destilação, com base em um preço que dependerá da qualidade potencial e do uso previsto dos volumes destilados.

Do capital inicial de 20 milhões de euros disponibilizado para o fundo fiduciário imobiliário, 14 milhões de euros provêm de quatro bancos parceiros (Crédit Agricole d’Aquitaine, Banque Populaire Aquitaine Centre Atlantique, Crédit Mutuel du Sud-Ouest e Caisse d’Épargne Aquitaine-Poitou-Charentes), 3 milhões de euros são fornecidos pelo Conselho Regional da Nova Aquitânia e 3 milhões de euros pelo Estado e suas instituições públicas (Câmara de Comércio e Indústria de Bordeaux-Gironde e Câmara de Agricultura da Gironda).

segunda-feira, 11 de maio de 2026

“The World’s Most Admired Wine Brands” 2026

 Antinori, uma das referências mais prestigiadas da enologia mundial, sinônimo por excelência do vinho italiano (liderada por Albiera Antinori, ao lado do pai Piero e das irmãs Allegra e Alessia, e do diretor executivo Renzo Cotarella), é a melhor marca europeia (e, portanto, também italiana) no mundo do vinho, e a segunda colocada no ranking geral, atrás da marca mais admirada, que continua sendo a da vinícola argentina Catena (também líder na América do Sul). A terceira posição ficou com a Familia Torres, uma instituição vinícola espanhola, que completa o pódio. Este é o veredicto do “The World’s Most Admired Wine Brands” 2026, o ranking elaborado anualmente pela revista “Drinks International”, com base nos votos de uma “academia” composta por sommeliers, compradores, atacadistas, Master of Wine e críticos de vinhos.

Ao percorrer o ranking, a Itália é a grande protagonista, com 7 vinícolas entre as 50 melhores — o mesmo número da edição de 2025, sem nenhuma “nova entrada”: na 5ª posição, de fato, está a Gaja, símbolo indiscutível das Langhe, do Barbaresco e do Barolo, vinícola dirigida por Angelo Gaja, junto com seus filhos Gaia, Rossana e Giovanni, e sua esposa Lucia. 16ª posição para o Ornellaia, uma das joias de Bolgheri do Grupo Frescobaldi, e o vinho que registrou a maior subida no ranking em relação a 2025, ganhando nada menos que 34 posições. A Antinori volta a figurar no ranking também com um de seus vinhos mais icônicos, o Tignanello (na 21ª posição), que deu um salto notável de 25 posições em relação à edição de 2025. Na prestigiosa “lista” figura também este ano outra marca de excelência do Belpaese, o Sassicaia (posição n.º 30) da Tenuta San Guido, da família Incisa della Rocchetta, que dirige a histórica propriedade de Bolgheri, juntamente com o presidente da Tenuta San Guido, Alessandro Berlingieri, e com o diretor executivo Carlo Paoli. Na 32ª posição, outra marca de ponta do vinho italiano, Frescobaldi, empresa histórica liderada por Lamberto Frescobaldi, e, na 38ª posição, está a Planeta, símbolo da Sicília vinícola que vem se afirmando no mundo, e vinícola que, sob a liderança de Diego Planeta anteriormente, e dos primos Alessio, Francesca e Santi Planeta atualmente, foi e continua sendo uma das grandes marcas do “renascimento” enológico da ilha.

Em um ranking que destaca a excelência em termos de qualidade, consistência, inovação e força da marca, o vinho europeu, (com a Itália entre os principais protagonistas em termos de colocação e a França e Espanha em termos de presenças, 13, respectivamente, nas primeiras 50 posições), continua a se destacar, ocupando 36 das 50 primeiras posições. Abaixo a lista das primeiras 50 posições:

1- Catena Zapata (Argentina)
2 - Antinori (Itália)
3 - Familia Torres (Espanha)
4 - Vega Sicilia (Espanha)
5 - Gaja (Itália)
6 - Penfolds (Austrália)
7 - Domaine de la Romanée-Conti (França)
8 - Symington (Portugal)
9 - Cvne (Espanha)
10 - La Rioja Alta (Espanha)
11 - Henschke (Austrália)
12 - E Guigal (França)
13 - Château Cheval Blanc (França)
14 - Château Margaux (França)
15 - M Chapoutier (França)
16 - Ornellaia (Itália)
17 - Kanonkop (África do Sul)
18 - Gérard Bertrand (França)
19 - Château d’Yquem (França)
20 - Marqués de Riscal (Espanha)
21 - Tignanello (Itália)
22 - Château Haut-Brion (França)
23 - Château Latour (França)
24 - Pétrus (França)
25 - Marqués de Cáceres (Espanha)
26 - Juvé & Camps (Espanha)
27 - Yalumba (Austrália)
28 - Perelada (Espanha)
29 - Nyetimber (Inglaterra)
30 - Sassicaia (Itália)
31 - Ramón Bilbao (Espanha)
32 - Frescobaldi (Itália)
33 - Château Mouton Rothschild (França)
34 - Ridge (EUA)
35 - Château Musar (Líbano)
36 - Esporão (Portugal)
37 - Faustino (Espanha)
38 - Planeta (Itália)
39 - Codorníu (Espanha)
40 - Bodegas Abadal (Espanha)
41 - Scala Dei (Espanha)
42 - Château Lafite (França)
43 - Louis Latour (França)
44 - Concha y Toro (Chile)
45 - Errázuriz (Chile)
46 - Cloudy Bay (Nova Zelândia)
47 - Opus One (EUA)
48 - Bruce Jack (África do Sul)
49 - Barton & Guestier (França)
50 - Felton Road (Nova Zelândia)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O VINHO NÃO ESTÁ EM CRISE, MAS ATRASADO EM RELAÇÃO AO CONSUMIDOR ATUAL

Durante anos, o mundo do vinho descreveu seu futuro com as palavras do passado: território, variedade de castas, denominação, safra. Palavras verdadeiras, importantes, muitas vezes nobres. Mas hoje a nível internacional e especialmente no mercado dos Estados Unidos, o mais importante do planeta, elas já não são suficientes. Porque o mercado não está simplesmente passando por uma fase negativa: está mudando de linguagem.

O relatório da Azur Associates – divulgado pelo SevenFifty Daily no artigo “Flavored Wines Are Leading Key Industry Trends in 2026” (Vinhos aromatizados lideram as principais tendências do setor em 2026) – afirma isso com total clareza: a indústria vinícola americana não é mais limitada pela oferta, mas pela relevância. A categoria continua a encolher, enquanto o consumidor se volta para outras opções, ocasiões, linguagens e formatos mais imediatos. No canal on-premise (vendas no local), o vinho recua: representa 12,4% dos gastos com bebidas alcoólicas e está em queda de 2,1%, enquanto as bebidas destiladas crescem 2,3% e as RTD (prontas para beber) chegam a crescer 32,5%. Não se trata de um detalhe estatístico: é uma mudança de poder cultural. 

A questão não é que os americanos tenham deixado de beber vinho. A questão é que eles deixaram de aceitar que seja o vinho a ditar as regras do relacionamento. Eles querem escolher com menos ansiedade, gastar com mais consciência, beber com mais leveza e entender imediatamente o que estão comprando. A Azur resume essa nova demanda nas quatro “F”: Format, Function, Flavor, Financial (formato, função, sabor, conveniência). Quatro palavras que deveriam fazer parte das discussões dos conselhos de administração das vinícolas antes mesmo de serem incluídas nos planos de marketing.

O restaurante é o laboratório mais evidente dessa transformação. De acordo com o artigo da The Drinks Business – "Restaurants wine sell fall as value and new trands drive US growth“ (Vendas de vinho em restaurantes caem, enquanto o valor e novas tendências impulsionam o crescimento nos EUA) –, as vendas de vinho no setor de consumo fora de casa nos Estados Unidos caíram cerca de 26% desde 2019. Mas, por trás dessa queda, não há apenas fraqueza: há sinais de adaptação. Aumentam os vinhos brancos, espumantes, opções acessíveis, regiões menos óbvias e formatos por taça mais flexíveis. O consumidor não rejeita o vinho; rejeita o ritual obrigatório da garrafa cara, intimidante e, muitas vezes, pouco compreensível. Ele busca qualidade sem um sobrepreço simbólico. Ele busca uma carta de vinhos que não seja um desafio, mas um convite. Tendencia que não se aplica somente aos EUA mas em muitos outros mercados do mundo que não estão entendo as mudanças estruturais dos consumidores.

É por isso que o crescimento dos vinhos aromatizados, muitas vezes vistos com desdém por parte do setor, é talvez a lição mais incômoda e útil. O SevenFifty Daily fala sobre uma categoria que cresce porque usa uma linguagem simples: pêssego, manga, melancia, abacaxi, pimenta. Sem cerimônias, sem códigos a serem decifrados. Muitos desses produtos são frizantes, de baixo teor alcoólico, fáceis de beber, próximos da estética dos RTDs (prontos para beber) e capazes de atrair consumidores jovens ou simplesmente menos ideológicos.

O consumidor se tornou léigo. Ele não pede permissão aos guardiões da tradição. Não divide o mundo em categorias sagradas: vinho autêntico, vinho fácil, coquetéis, RTD (prontos para beber), bebidas com baixo teor alcoólico, espumantes, aromatizados. Ele transita entre as ocasiões. Pode comprar um vinho aromatizado para a praia, um Sauvignon Blanc no restaurante, um coquetel pronto para uma festa e uma garrafa especial para um jantar. Ele não vê essa pluralidade como uma contradição. Ele a vê como liberdade.

Mas o setor, por outro lado, continua muitas vezes a encarar isso como uma ameaça.

Esse é o maior erro. Pois o sucesso dos RTDs, dos vinhos aromatizados, dos brancos frescos, dos espumantes acessíveis e dos formatos mais flexíveis não significa que o vinho deva renegar a si mesmo. Significa que ele deve parar de se dirigir apenas àqueles que já o compreendem. Simplificar não é banalizar. É tornar acessível. É eliminar atritos. É tornar a promessa mais clara.

O vinho italiano, em particular, deveria prestar atenção a esses sinais. Temos uma riqueza extraordinária de territórios, variedades de uvas, denominações e estilos. Mas essa mesma riqueza, se não for traduzida, pode se tornar apenas ruído. Diante de um consumidor mais seletivo, mais curioso, mas também mais cético, não podemos nos limitar a dizer “é autêntico”, “é histórico”, “é premium”. Precisamos dizer por que bebê-lo, quando bebê-lo, com quem bebê-lo, a que preço, com que experiência.

O futuro não recompensará quem gritar mais alto sobre sua complexidade. Recompensará quem souber torná-la atraente. Isso não significa seguir todas as modas ou transformar o vinho em uma caricatura aromatizada de si mesmo. Significa reconhecer que a centralidade do produto já não é suficiente. O que importa é a ocasião. O que importa é o formato. O que importa é a mensagem. O que importa é a facilidade com que um consumidor percebe que aquele vinho é para ele, naquele momento. É preciso ir ao encontro dos consumidores onde eles estiverem, criar canais mais acessíveis, adaptar o formato à ocasião e repensar o papel do vinho como elemento de conexão social. Essa é talvez a frase mais importante: o vinho não deve defender apenas a sua própria categoria, mas sim reconquistar ocasiões. 

A questão, então, não é se o vinho a nível global voltará ao mercado de antes. Provavelmente ele não voltará. A questão é quem terá a coragem de interpretar o novo mercado.

Porque o consumidor não é menos exigente. É menos paciente. Não está menos interessado. É mais livre. Não é contra o vinho. É contra tudo o que torna o vinho distante e complicado

domingo, 5 de abril de 2026

ENGARRAFAMENTO DE VINHOS ITALIANOS EM 2025 - ANÁLISE ESTRUTURAL

O volume total de engarrafamento de vinho italiano em 2025 registra uma queda de 2,1% em relação a 2024 (quando foram certificadas 2,019 bilhões de garrafas, -0,46% em relação a 2023, mas +1,4% em relação à média do período 2019-2023), mas com resultado positivo para as denominações DOCG e DOC, que são o motor das exportações de vinho, com +1%, tanto em relação ao ano anterior quanto à média dos últimos três anos. Em queda, por outro lado, os IGT, que registraram uma contração significativa de -12% em relação a 2024 e de -10% em relação à média do triênio anterior, enquanto, de maneira geral, observam-se desempenhos díspares entre os tipos de vinho: bom desempenho para os espumantes (+1%), rosés (+5,7%) e brancos tranquilos (+2,7%), enquanto os tintos apresentaram queda de mais de -13%. A Valoritalia, principal órgão de certificação da cadeia vitivinícola (que, sozinha, controla mais de 60% dos volumes de produção e engarrafamento de todas as Denominações de Origem italianas), fala em substancial mantimento dos volumes, superiores aos registrados durante a época da Covid, apesar de um mercado complexo e de demanda reduzida, quando publicou os dados, atualizados em 31 de dezembro de 2025, sobre o engarrafamento de vinhos italianos.

Uma atualização que surge graças ao trabalho da nova plataforma digital “Tessa” (de propriedade da Valoritalia e totalmente desenvolvida pela entidade em colaboração com a Microsoft), que permite processar grandes quantidades de dados, especificamente os movimentos gerados pelas mais de 90.000 empresas envolvidas na produção e comercialização das 219 Denominações de Origem certificadas.

Segundo a Valoritalia, o ano de 2025 “marca uma fase de consolidação para a cadeia produtiva vitivinícola de qualidade: após anos de forte crescimento pós-pandêmico, o setor atravessa uma fase de estabilização, caracterizada tanto por uma contração moderada dos volumes quanto por um fortalecimento das produções de maior valor agregado”. Salientando que “em relação a 2024, o volume total de engarrafamentos registrou uma queda moderada”. Uma dicotomia de desempenho, no que diz respeito ao tipo de vinhos, definida como “em linha com a evolução das preferências de consumo a nível nacional e internacional, que há alguns anos privilegiam os vinhos brancos e espumantes em detrimento dos tintos”, com dados que “destacam uma diferenciação significativa no desempenho das Denominações de Origem, ligada aos volumes de produto comercializado”.

O foco recai sobre o conjunto das microdenominações, ou seja, aquelas que, em 2025, registraram engarrafamentos inferiores a 10.000 hectolitros, representando nada menos que 70% das 219 denominações certificadas pela Valoritalia, mas apenas 2% do total de engarrafamentos. Este segmento registrou uma queda de 7,2%, bem acima da média do setor, enquanto as 13 pequenas denominações com volumes entre 10 e 20.000 hectolitros (6% das DO e 2% do volume total) apresentaram um crescimento de 3%. As 19 denominações de pequeno e médio porte, com volumes entre 20.000 e 50.000 hectolitros, também sofreram uma queda de 4,7%, enquanto as 20 denominações de médio e grande porte, com volumes entre 50.000 e 150.000 hectolitros, registraram um crescimento de 4%. Por fim, as 14 grandes denominações com volumes superiores a 150.000 hectolitros atingiram -2,7%. Para Valoritalia, “o que se destaca desses dados é a fragilidade estrutural das microdenominações, que enfrentam muitas dificuldades para responder de forma eficaz às oscilações do mercado”.

Do ponto de vista estrutural, os dados de 2025 confirmam a forte fragmentação produtiva do setor: mais de 75% dos engarrafadores certificados pela Valoritalia comercializaram menos de 65.000 garrafas, enquanto apenas 171 empresas (3,2% do total) engarrafaram mais de 1,3 milhão, evidenciando uma forte concentração do setor: os cinco maiores operadores engarrafam 18% do volume total, mas representam somente 0,1% do total das empresas do setor.

As análises do Nomisma Wine Monitor confirmam a capacidade de adaptação do setor, com a produção ajustando-se a um mercado de dinâmicas complexas, o que levou a uma redução de 3% no valor das exportações de vinho italiano, num contexto em que os demais concorrentes sofreram perdas muito mais significativas (de -15% da Austrália a -10% do Chile, passando por -4,5% da França). Uma queda que, no entanto, foi acompanhada por uma redução semelhante de 2,8% no volume de vendas de vinho no comércio de grande distribuição italiano, onde os vinhos tranquilos e espumantes foram os mais afetados (-3,8%) em comparação com os espumantes que, ao contrário e seguindo uma tendência que já se mantém há vários anos, registraram um novo crescimento de 3,1%. 

Para Giangiacomo Gallarati Scotti Bonaldi, presidente da Federdoc, o órgão que representa os consórcios de proteção vitivinícola italianos, “embora os dados de 2025 confirmem a estabilidade substancial do sistema nacional, eles, no entanto, revelam uma evidente fragmentação do setor das Denominações de Origem”. Na minha opinião, é cada vez mais urgente dar início a uma reforma organizacional do setor, apostando cada vez mais no papel dos Consórcios de Proteção, também à luz das novas funções de programação que lhes foram atribuídas pela União Europeia. Nesse sentido, o modelo de análise e processamento de dados desenvolvido pela Valoritalia oferece um apoio fundamental, pois é somente a partir de dados concretos que se podem tomar decisões sensatas e com visão de futuro.