terça-feira, 9 de junho de 2026

CARTAS DE VINHOS SOFISTICADAS: MUITO ESTATUS, POUCA ALMA

As cartas de vinhos dos restaurantes "estrelados" muitas vezes revelam menos identidade do que prometem. Entre grandes casas vinícolas, alocações, distribuição e medo do risco, muitas cartas acabam se parecendo. O problema não é a presença dos grandes nomes, mas sim quando o status substitui o pensamento, a narrativa e a relação real entre o vinho, a cozinha e o cliente.

A análise de Sara Danese, intitulada “I Looked at 1,000 Wine Lists. The Data Says the State of Fine Wine is Boring and Overpriced”, após o estudo de 1.063 cartas de vinhos de restaurantes com estrelas Michelin, retrata um panorama bastante claro: nos locais onde o vinho deveria brilhar, muitas vezes ele acaba ficando comportado, arrumadinho, caríssimo e um pouco previsível. Krug e Dom Pérignon aparecem em 42% das cartas analisadas. Entre os produtores mais presentes, encontram-se Château d’Yquem, Gaja, Bollinger, Louis Roederer, Sassicaia, Château Margaux, Ruinart, Domaine Leflaive, Mouton Rothschild, Vega Sicilia, Domaine de la Romanée-Conti e Haut-Brion.

Todos nomes de peso. Garrafas que fizeram história. Ninguém em sã consciência questionaria a grandeza do Krug. Mas fica uma pergunta: por que as cartas dos restaurantes mais ambiciosos do mundo acabam se parecendo tanto?

A resposta mais fácil é culpar o cliente. Ele quer uma marca conhecida, uma garrafa confiável, um rótulo que não exija explicações. É verdade. Mas essa interpretação deixa de lado o aspecto mais interessante: a distribuição. Uma carta de vinhos é também o resultado da disponibilidade, das alocações, das relações comerciais, do portfólio, dos importadores e das condições de compra. A poesia do terroir, mais cedo ou mais tarde, passa por uma planilha do Excel. E é aí que ela perde um pouco do seu aroma.

Certos vinhos não se compram simplesmente porque o sommelier os quer. Eles são conquistados. E, para conquistá-los, muitas vezes é preciso aceitar um sistema de trocas: você compra algumas garrafas, coloca outras na carta de vinhos, garante a rotatividade de certos produtos e, talvez, consiga o que realmente lhe interessa.

Quer aquele champanhe de um pequeno produtor que deixaria o sommelier encantado? Primeiro, abra espaço para a grande casa. Quer algumas garrafas de um Borgonha raro? Precisa provar que aquele vinho é útil para o restante do portfólio. Quer manter certas alocações? Alguns rótulos precisam permanecer visíveis, mesmo que vendam pouco.

Muitos cartas de restaurantes "estrelados" parecem entediantes também porque o sistema torna o tédio vantajoso. A inovação, por outro lado, exige esforço, relacionamentos e alguns riscos comerciais. 

Uma das observações mais relevantes do artigo de Danese diz respeito justamente à diferença entre presença e vendas. Alguns grandes fabricantes estão presentes em todos os lugares, mas, segundo vários depoimentos, podem representar uma parcela mínima das vendas efetivas. Isso só parece estranho à primeira vista. Certas garrafas não estão na carta apenas para enfeite, mas também para transmitir uma mensagem. Elas transmitem prestígio ao cliente, enquanto ao mercado indicam que o restaurante atua em uma determinada categoria.

Uma carta de vinhos com Krug, Dom Pérignon, DRC, Sassicaia, Yquem e alguns châteaux de Bordeaux transmite imediatamente uma sensação de solidez. Talvez o cliente acabe pedindo outra coisa. Talvez essas garrafas fiquem na prateleira por meses. Mas, enquanto isso, elas cumprem seu papel.

O problema surge quando o status substitui a identidade.

Vender Dom Pérignon é fácil. O cliente conhece o nome, entende o que representa e se sente seguro. Vender um champanhe de uma pequena casa é outra história: é preciso explicá-lo, contextualizá-lo e servi-lo no momento certo. Isso exige presença na sala e uma cozinha capaz de dar sentido a ele.

Há ainda um equívoco a esclarecer: o restaurante "estrelado" não se destina apenas aos clientes habituais de alto poder aquisitivo. Muitas vezes, é também o local ideal para uma experiência anual, um aniversário especial, uma data comemorativa ou um jantar agendado após uma boa reflexão. Nesse contexto, o cliente entra para viver uma experiência. E é justamente aí que faria sentido encontrar alternativas inteligentes, garrafas capazes de abrir novas possibilidades, escolhas que proporcionem prazer sem obrigar ninguém a ligar para o contador entre a entrada e o primeiro prato.

O preço, por sua vez, complica tudo. Um cliente que entra em um restaurante com estrelas sabe que não está em uma trattoria e sabe que aquele restaurante tem custos enormes: equipe, salão, cozinha, pesquisa, adega, serviço. Ninguém espera uma carta de vinhos barata. No entanto, uma lista composta apenas por rótulos conhecidos expõe o restaurante a um problema evidente: o cliente conhece esses nomes, talvez tenha pesquisado o preço online, talvez os tenha encontrado em uma loja de vinhos ou em outros estabelecimentos. A comparação é imediata e, muitas vezes, dolorosa.

As etiquetas menos conhecidas, se bem escolhidas e bem apresentadas, podem abrir um espaço diferente. Elas são menos comparáveis, menos pressionadas pelo preço “real” que o cliente pensa conhecer, e têm mais liberdade para serem avaliadas dentro da experiência do restaurante. É claro que isso requer confiança. Requer um sommelier capaz de explicar e uma carta de vinhos pensada para harmonizar.

Resumindo, uma carta de vinhos deve ser uma declaração de intenções. Ela deveria revelar quem você é, para onde deseja levar o cliente e qual é a sua visão sobre a relação entre vinho e culinária.

Se nos restaurantes onde o vinho deveria se expressar da melhor forma possível encontramos frequentemente os mesmos produtores, as mesmas regiões, os mesmos preços elevados e as mesmas garantias, a responsabilidade é compartilhada. Pesam a distribuição, as alocações, as expectativas dos clientes e o papel das grandes marcas. E, além disso, as escolhas dos chefs e sommeliers são importantes, pois mesmo dentro de um sistema condicionado sempre há espaço para decidir que experiência criar.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

ITÁLIA: quais as medidas para intervir no desequilíbrio entre oferta e demanda de vinhos

 A UIV (Unione Italiana Vini), que reuniu na quinta-feira, 4 de junho, o Conselho Nacional em Soave (Verona), acaba de aprovar um pacote de propostas para a contenção da produção de vinho a nível nacional. Trata-se de medidas de curto e médio prazo que a Uiv quis colocar no papel, na esperança de que sejam discutidas na próxima reunião geral sobre Vinho no Masaf (Ministério dell'Agricultura, della Sovranità Alimentare e delle Foreste).

A UIV, que também se reuniu com a direção da Federdoc, elogiou o «senso de responsabilidade já demonstrado por vários consórcios que, nestes dias — como lembrou o presidente Frescobaldi — estão trabalhando para conter os rendimentos. Entre estes, destaca-se o caso de Franciacorta, que solicitou e obteve do Masaf a limitação das autorizações de plantio em toda a região».

De quais medidas concretas estamos falando?

Entre as medidas mais urgentes, segundo a UIV, para corrigir o desequilíbrio entre oferta e demanda, estão a suspensão temporária de novas autorizações de plantio e a redução dos rendimentos de produção, incluindo os vinhos DOP e IGP. É necessário também atualizar os disciplinares de produção e revisar os limites de rendimento para os vinhos genéricos, com um sistema de sanções mais eficaz e uma regulamentação mais rigorosa das reclassificações entre denominações. De acordo com o Observatório UIV, em abril as vinícolas italianas registraram um aumento nos estoques de +7,6% em relação ao mesmo período de 2025, com os preços a granel das principais DOP-IGP em queda de 7%. «Esta desaceleração do mercado – escreve a Uiv – é agravada pelo desempenho nos mercados externos, que, após um 2025 em contração (-3,7% no valor total em relação a 2024), encerram também o primeiro trimestre de 2026 com o mercado fora da UE estagnado em -11%».

No documento aprovado pelo Conselho Nacional, foram excluídos planos generalizados de extirpações de vinhedos, considerados «ineficazes e prejudiciais, sobretudo para as regiões montanhosas e de colinas». No médio a longo prazo, a Uiv solicita a elaboração de um plano estratégico nacional para os próximos 5 a 10 anos, com o objetivo de “adequar a produção à demanda real e fortalecer a competitividade do vinho italiano nos mercados nacionais e internacionais”.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

ESPUMANTES - Mercado global em transição

 O mercado global de espumantes está passando por uma fase de transformação estrutural que o afasta cada vez mais do papel de bebida associada exclusivamente a celebrações, inserindo-o de forma definitiva entre os produtos de consumo premium do dia a dia. De acordo com as estimativas mais recentes, o valor atingiu 49,85 bilhões de dólares em 2025 e poderá chegar a 69,21 bilhões até 2032, com uma taxa média de crescimento anual (CAGR) de 4,8%.

Nesse contexto, os espumantes representam, há anos, o segmento mais dinâmico do setor vinícola, muitas vezes o único capaz de registrar crescimento no consumo diante de uma retração geral dos demais tipologias. Uma tendência evidente também na Itália, onde o crescimento já não se limita apenas ao Prosecco, mas se estende a uma gama cada vez mais ampla de denominações, incluindo as produzidas pelo Método Clássico que apresentam um desempenho particularmente dinâmico tanto no mercado interno quanto nas exportações. É o que aponta a Maximize Market Research (MMR) no relatório “Dimensão do mercado de vinho espumante – Avaliação da estrutura do setor, análise dos fatores que impulsionam a demanda, análise e identificação do crescimento regional, revisão do posicionamento competitivo e previsões da dimensão do mercado global até 2032”, segundo o qual, impulsionando essa evolução, estão diversos fatores convergentes, entre os quais a sazonalidade do consumo, a crescente demanda por produtos de alta gama, a expansão dos canais digitais e uma transformação nos hábitos de consumo que coloca o vinho espumante como protagonista também em aperitivos, coquetéis e consumo doméstico, em linha com uma mudança mais ampla do mercado de bebidas em direção a experiências de qualidade e acessibilidade generalizada.

O crescimento é, de fato, impulsionado pela expansão da chamada “premiumização”, um fenômeno que está redesenhando todo o setor e também a forma como as marcas posicionam o champanhe, o prosecco, o cava, o crémant e outros tipos de espumantes: os consumidores demonstram um interesse crescente pela origem dos produtos, pela narrativa da marca, pela distinção entre safras, pela viticultura orgânica e sustentável, pelas produções de baixa intervenção e pelas Cuvées de alta gama, levando o mercado a se desvincular definitivamente dos ciclos de consumo ligados às festas para se alinhar a um modelo mais amplo de consumo experiencial, transparente e integrado ao estilo de vida premium. Ao mesmo tempo, a ampliação da oferta e a presença de diferentes faixas de preço tornam essa categoria acessível a um público mais amplo, favorecendo um crescimento ao longo de todo o ano.

Do ponto de vista estrutural — continua a Mmr —, o setor se articula por tipos de produto, canais de distribuição e áreas geográficas: entre os produtos, destacam-se o Cava, o Champagne, o Crémant, o Prosecco e outros vinhos espumantes, enquanto os principais canais incluem supermercados e hipermercados, lojas especializadas e o canal on-trade. Nesse contexto, o Champagne se confirma como segmento-chave da premiumização, com um crescimento previsto em torno de 4,5% ao ano, graças a estratégias de marketing de alto nível, relações diretas com os clientes, valorização das safras e posicionamento orientado para a sustentabilidade. Os sinais da demanda premium concentram-se em safras raras, sustentabilidade ambiental, acessibilidade impulsionada pelo Prosecco e consumo ligado também à prática de presentear.

A digitalização desempenha um papel decisivo: o comércio eletrônico e os modelos diretos ao consumidor permitem que os fabricantes fortaleçam o relacionamento com os clientes, ampliem a distribuição e melhorem o posicionamento das marcas, enquanto ferramentas como boletins informativos, vendas online e interação digital estão redefinindo a relação entre fabricante e consumidor final. A embalagem também representa uma nova fronteira estratégica: destacam-se garrafas mais leves, materiais recicláveis, sistemas de engarrafamento sustentáveis, rótulos inteligentes e soluções avançadas de rastreabilidade. Em um mercado fortemente influenciado pelos elementos visuais da marca, a embalagem sustentável torna-se não apenas uma exigência ambiental, mas também um fator de valorização, capaz de atrair consumidores mais jovens, varejistas modernos e distribuidores voltados para a exportação.

Do ponto de vista geográfico, a Europa continua sendo o centro do mercado global, com Itália, França, Alemanha e Espanha que, juntamente com os Estados Unidos, representam 80% da produção mundial: a Itália lidera com 27%, seguida pela França com 22%, pela Alemanha com 14% e pela Espanha com 11%, enquanto os Estados Unidos contribuem com 6%. A produção global atingiu 2,5 bilhões de garrafas, com um aumento de quase 56% nos últimos 20 anos, e o vinho espumante representa hoje pouco menos de 8% da produção mundial de vinho.

No que diz respeito à demanda, os Estados Unidos continuam sendo o principal mercado de importação em valor, impulsionado pela segmentação premium, pelo varejo digital e pelo consumo ligado a eventos e à restauração de alto padrão, enquanto o Reino Unido está entre os principais importadores em volume, juntamente com os EUA, com 180 milhões de garrafas cada. A Alemanha continua sendo o maior consumidor global e um importante produtor, enquanto mercados asiáticos como Japão, Coreia do Sul, China e Índia estão emergindo como áreas estratégicas, impulsionados pelo crescimento da renda, pelo consumo premium e pela expansão do canal digital e da hospitalidade de alto padrão.

“O mercado de vinhos espumantes está passando de uma categoria associada a celebrações para uma plataforma de consumo premium ligada ao estilo de vida. O sinal de crescimento mais importante não é apenas o aumento do consumo, mas a forma como este está mudando. Os consumidores buscam vinhos espumantes que combinem origem, ocasiões de consumo, descoberta digital, sustentabilidade e experiência premium. As empresas que investirem em cadeias de abastecimento inteligentes, no envolvimento direto dos consumidores, em práticas sustentáveis nas vinhas e em uma narrativa diferenciada do produto estarão melhor posicionadas para capturar valor até 2032”, conclui Siddhi Dole, gerente de pesquisa da Maximize Market Research


quinta-feira, 28 de maio de 2026

O MUNDO DO VINHO MIRA PARA O EQUILÍBRIO ENTRE PRODUÇÃO E CONSUMO

O setor vitivinícola mundial continua passando por uma fase de transformação estrutural. Em 2025, a superfície plantada com vinhedos diminuiu pelo sexto ano consecutivo, enquanto a produção, o consumo e o comércio internacional continuam sob pressão em um contexto marcado pelas mudanças climáticas, incertezas econômicas e mudanças nos hábitos dos consumidores. No entanto, a Itália e a França continuam sendo líderes em produção, exportação e consumo (superadas, neste último caso, pelos Estados Unidos, enquanto a Espanha mantém o recorde de maior superfície plantada).

As informações acima fazem parte do relatório sobre a “Situação do setor vitivinícola mundial” de 2025, apresentado poucos dias atrás em Lyon pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). De acordo com as últimas estimativas, a área mundial plantada totalizou 7 milhões de hectares, uma queda de 0,8% em relação a 2024. Essa redução reflete o ajuste progressivo da capacidade produtiva por parte dos principais países vitícolas de ambos os hemisférios, que enfrentam uma demanda mais fraca e mercados cada vez mais instáveis. A produção mundial de vinho também permanece em níveis historicamente baixos. Estima-se que, em 2025, ela chegue a 227 milhões de hectolitros, apenas 0,6% a mais do que o mínimo registrado em 2024. As condições climáticas continuam, de fato, a afetar fortemente as colheitas: secas, eventos extremos e forte variabilidade meteorológica limitaram a produtividade em várias regiões vitivinícolas. A isso se somam as decisões de algumas regiões de reduzir voluntariamente a produção para conter os excedentes e sustentar o mercado.

No que diz respeito à demanda, o consumo mundial de vinho está estimado em 208 milhões de hectolitros, o que representa uma queda de 2,7% em relação ao ano anterior. Uma tendência que confirma a evolução em curso nos mercados maduros, onde mudam os estilos de vida, os hábitos sociais e as preferências das novas gerações. Também pesam a inflação e a desaceleração econômica, que reduziram o poder de compra dos consumidores. Nesse cenário, alguns mercados se destacam, no entanto, por seu dinamismo. Portugal, Brasil e Japão estão entre os países que, em 2025, registraram um crescimento no consumo, juntamente com algumas regiões da Europa Central e Oriental.

O comércio internacional também enfrenta dificuldades. As exportações mundiais de vinho caíram para 94,8 milhões de hectolitros (-4,7%), enquanto o valor total das transações comerciais diminuiu para 33,8 bilhões de euros (-6,7%). Apesar da contração, os valores continuam, no entanto, acima dos níveis registrados antes da pandemia. O que está travando o comércio é, sobretudo, a desaceleração da demanda global, as tensões comerciais e as incertezas relacionadas às políticas tarifárias, em particular no mercado norte-americano. Os Estados Unidos, o maior mercado mundial em termos de valor de importações, viram as compras de vinho estrangeiro caírem para 5,5 bilhões de euros, o que representa uma redução de 12% em relação a 2024. 

Apesar do panorama complexo, o mercado global de vinhos parece hoje estar substancialmente em equilíbrio. Pelo terceiro ano consecutivo, de fato, a produção mundial permanece relativamente baixa, o que contribui para limitar o acúmulo de estoques. A diferença entre produção e consumo em 2025 está estimada em cerca de 18,7 milhões de hectolitros, mas esse dado deve ser interpretado levando em conta também os usos industriais do vinho — desde a destilação até a produção de vinagre, passando pelos produtos derivados e pelas bebidas destiladas —, que absorvem, em média, cerca de 30 milhões de hectolitros por ano. Um equilíbrio frágil, portanto, mas que, por enquanto, permite ao setor evitar desequilíbrios mais profundos num contexto internacional ainda marcado por forte volatilidade.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

VINHAS VELHAS: MITO OU GARANTIA DE QUALIDADE?

“Vinhas velhas” nos faz pensar em uma vinícola familiar, tradição e sustentabilidade, profundidade e complexidade. As inscrições no rótulo sugerem um vinho excepcional. Mas será que é isso mesmo?

Um estudo da California State University demonstra que os vinhos rotulados como “Old Vines” tendem a ter preços mais altos, mesmo que as diferenças objetivas de qualidade sejam, por vezes, mínimas. Além disso, ainda não existe uma definição legal do que isso significa. Do ponto de vista alemão e francês, por exemplo, a faixa etária das videiras entre 30 e 50 anos produzem excelentes resultados em termos de qualidade do vinho, antes que a qualidade comece, em média, a declinar. Para a Historical Vineyard Society, por outro lado, na Califórnia, com seu clima equilibrado — pelo menos até as mudanças climáticas —, uma videira com menos de 50 anos não é considerada velha, pois as videiras ainda podem ter décadas pela frente. Por isso, em 2024, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) emitiu uma recomendação para o registro legal de vinhas velhas. No entanto, o esforço administrativo necessário seria enorme. Como iniciativa de preservação, o blogueiro Alder Yarrow lançou o banco de dados gratuito “Old Vine Registry” como um centro de registro mundial, que agora contém mais de 10.000 registros de vinhedos com pelo menos 35 anos.

No entanto, hoje em dia qualquer rótulo pode ostentar a menção “Vinhas Velhas”, independentemente da idade das videiras. As vinhas velhas não produzem automaticamente vinhos melhores. Isso vale sobretudo para o material genético de baixa qualidade das videiras e para as variedades de uva de qualidade limitada, que muitas vezes são cultivadas de forma pouco cuidadosa no vinhedo. Uma videira produzida em série em uma zona pobre, cuja biologia do solo foi prejudicada por muitas pulverizações e máquinas pesadas, não produz um bom mosto, independentemente da idade das videiras. E ainda menos se for proveniente de rendimentos excessivos e se tiver sido otimizada com produtos químicos na adega.

Porém, se o vinhedo for cuidado de maneira ideal, com o passar dos anos surgem muitas vantagens para os viticultores: em boas localizações, as vinhas velhas criam raízes profundas, alcançam muitas camadas complexas do solo e micronutrientes, e apresentam menor vigor. A relação entre folhagem e frutos é favorável. Com o passar dos anos, os viticultores observam uma diminuição nos níveis de açúcar e nos rendimentos, a fase de maturação se prolonga, os bagos permanecem menores e os extratos aumentam. Os vinhos tornam-se assim mais leves, mais minerais, mais complexos e, nos melhores casos, expressam um terroir forte, com mais requinte, equilíbrio e profundidade. As próprias videiras tornam-se mais resistentes aos fatores de estresse, especialmente à seca, o que garante a sobrevivência dos viticultores em algumas regiões e assegura um rendimento constante em outras áreas de cultivo.

As vinhas velhas contam histórias sobre o solo, a encosta e o trabalho dos viticultores, que muitas vezes se consideram enraizados no trabalho de gerações e veem o vinhedo como um bem cultural. Mas quase nenhum guia ou carta de vinhos lista as “vinhas velhas” como categoria. Apenas a África do Sul autorizou um selo oficial para vinhos provenientes de vinhas velhas. Sob o antigo monopólio estatal, todas as plantações foram registradas a partir de 1920. De acordo com um estudo realizado com compradores de vinho sul-africanos, no entanto, nem mesmo metade deles considera que o rótulo seja um indicador importante de qualidade. Uma pesquisa realizada pelo site “Wine Opinions” apresentou resultados semelhantes: apenas 34% votaram em “vinhas velhas” como indicador de qualidade. Ironia do destino, a menção “vinhedo histórico” obteve 45%. Como era de se esperar, os representantes da associação californiana declararam recentemente, por ocasião da Old Vine Conference, que mesmo os apreciadores de vinho interessados no vinhedo não conseguiam distinguir as videiras retorcidas e centenárias das plantas jovens em estrutura metálica.

Os consumidores aceitariam preços mais altos se tivessem mais informações? Além do significado histórico-cultural, que não se traduz em vantagens para os apreciadores na taça, é aqui que reside o verdadeiro valor agregado: em termos de atratividade sensorial, os vinhos provenientes de vinhas velhas cultivadas com precisão se destacam em relação à maioria de seus equivalentes.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

REESTRUTURAÇÃO EM BORDEAUX DOS VINHEDOS EXTIRPADOS

Um fundo inicial de 20 milhões de euros para redesenhar e valorizar o futuro dos vinhedos afetados pelo plano de extirpação, oferecendo assim novas perspectivas aos viticultores que, no Departamento da Gironda — cujo principal centro é Bordeaux —, estão passando por uma fase complicada: basta pensar que, de 2023 a 2025, a área dos vinhedos da Gironda diminuiu em 20.000 hectares, com um novo plano de extirpação já anunciado. Trata-se da iniciativa “Foncier d’avenir en Gironde”, um programa piloto lançado pelo Governo francês e pelo Conselho Regional, em consulta com as organizações profissionais do setor agrícola, a Agência de Desenvolvimento Territorial da Nova Aquitânia, as Câmaras de Comércio, os bancos parceiros (que desempenham um papel central, financiando 14 dos 20 milhões de euros) e as autoridades locais, que visa enfrentar os desafios atuais do setor vitivinícola da Gironda, promovendo também o desenvolvimento de projetos individuais e coletivos de diversificação agrícola, e que se insere em uma abordagem mais ampla de reestruturação dos vinhedos, combate ao abandono das terras e apoio às transições econômicas e ambientais.

Nos últimos dias, foi publicado no site da Prefeitura da Gironda um edital de manifestação de interesse (inscrições abertas até 7 de junho de 2026) com o objetivo de identificar os proprietários de vinhedos no departamento que desejam vender terrenos baldios resultantes da extirpação de vinhedos ou vinhedos que serão arrancados em 2026, bem como eventuais estoques de vinho destinados à destilação associados a tais terrenos. Tudo isso com o objetivo de identificar as áreas prioritárias de intervenção junto ao Comitê Diretor do programa, que definirá as prioridades de aquisição para atingir os objetivos estabelecidos. Um plano que surgiu porque, apesar de todos os esforços, o reequilíbrio entre oferta e demanda ainda dependerá da extirpação. Mas, por outro lado, a disseminação dos “vinhedos em repouso” é vista como um risco para a saúde das plantas e, consequentemente, para a propagação da flavescência dourada, o principal perigo. Mas há outra consideração que foi mencionada, a saber, que as operações de arranque foram realizadas de forma irregular, com consequente fragmentação do sistema de parcelas, um fato que não favorece o desenvolvimento de projetos de diversificação estruturados.

A lógica de intervenção do programa experimental de reestruturação fundiária baseia-se na aquisição ou na troca de parcelas, principalmente vinhedos extirpados, com base nos preços de mercado, e na aquisição de estoques de vinho associados às parcelas e destinados à destilação, com base em um preço que dependerá da qualidade potencial e do uso previsto dos volumes destilados.

Do capital inicial de 20 milhões de euros disponibilizado para o fundo fiduciário imobiliário, 14 milhões de euros provêm de quatro bancos parceiros (Crédit Agricole d’Aquitaine, Banque Populaire Aquitaine Centre Atlantique, Crédit Mutuel du Sud-Ouest e Caisse d’Épargne Aquitaine-Poitou-Charentes), 3 milhões de euros são fornecidos pelo Conselho Regional da Nova Aquitânia e 3 milhões de euros pelo Estado e suas instituições públicas (Câmara de Comércio e Indústria de Bordeaux-Gironde e Câmara de Agricultura da Gironda).

segunda-feira, 11 de maio de 2026

“The World’s Most Admired Wine Brands” 2026

 Antinori, uma das referências mais prestigiadas da enologia mundial, sinônimo por excelência do vinho italiano (liderada por Albiera Antinori, ao lado do pai Piero e das irmãs Allegra e Alessia, e do diretor executivo Renzo Cotarella), é a melhor marca europeia (e, portanto, também italiana) no mundo do vinho, e a segunda colocada no ranking geral, atrás da marca mais admirada, que continua sendo a da vinícola argentina Catena (também líder na América do Sul). A terceira posição ficou com a Familia Torres, uma instituição vinícola espanhola, que completa o pódio. Este é o veredicto do “The World’s Most Admired Wine Brands” 2026, o ranking elaborado anualmente pela revista “Drinks International”, com base nos votos de uma “academia” composta por sommeliers, compradores, atacadistas, Master of Wine e críticos de vinhos.

Ao percorrer o ranking, a Itália é a grande protagonista, com 7 vinícolas entre as 50 melhores — o mesmo número da edição de 2025, sem nenhuma “nova entrada”: na 5ª posição, de fato, está a Gaja, símbolo indiscutível das Langhe, do Barbaresco e do Barolo, vinícola dirigida por Angelo Gaja, junto com seus filhos Gaia, Rossana e Giovanni, e sua esposa Lucia. 16ª posição para o Ornellaia, uma das joias de Bolgheri do Grupo Frescobaldi, e o vinho que registrou a maior subida no ranking em relação a 2025, ganhando nada menos que 34 posições. A Antinori volta a figurar no ranking também com um de seus vinhos mais icônicos, o Tignanello (na 21ª posição), que deu um salto notável de 25 posições em relação à edição de 2025. Na prestigiosa “lista” figura também este ano outra marca de excelência do Belpaese, o Sassicaia (posição n.º 30) da Tenuta San Guido, da família Incisa della Rocchetta, que dirige a histórica propriedade de Bolgheri, juntamente com o presidente da Tenuta San Guido, Alessandro Berlingieri, e com o diretor executivo Carlo Paoli. Na 32ª posição, outra marca de ponta do vinho italiano, Frescobaldi, empresa histórica liderada por Lamberto Frescobaldi, e, na 38ª posição, está a Planeta, símbolo da Sicília vinícola que vem se afirmando no mundo, e vinícola que, sob a liderança de Diego Planeta anteriormente, e dos primos Alessio, Francesca e Santi Planeta atualmente, foi e continua sendo uma das grandes marcas do “renascimento” enológico da ilha.

Em um ranking que destaca a excelência em termos de qualidade, consistência, inovação e força da marca, o vinho europeu, (com a Itália entre os principais protagonistas em termos de colocação e a França e Espanha em termos de presenças, 13, respectivamente, nas primeiras 50 posições), continua a se destacar, ocupando 36 das 50 primeiras posições. Abaixo a lista das primeiras 50 posições:

1- Catena Zapata (Argentina)
2 - Antinori (Itália)
3 - Familia Torres (Espanha)
4 - Vega Sicilia (Espanha)
5 - Gaja (Itália)
6 - Penfolds (Austrália)
7 - Domaine de la Romanée-Conti (França)
8 - Symington (Portugal)
9 - Cvne (Espanha)
10 - La Rioja Alta (Espanha)
11 - Henschke (Austrália)
12 - E Guigal (França)
13 - Château Cheval Blanc (França)
14 - Château Margaux (França)
15 - M Chapoutier (França)
16 - Ornellaia (Itália)
17 - Kanonkop (África do Sul)
18 - Gérard Bertrand (França)
19 - Château d’Yquem (França)
20 - Marqués de Riscal (Espanha)
21 - Tignanello (Itália)
22 - Château Haut-Brion (França)
23 - Château Latour (França)
24 - Pétrus (França)
25 - Marqués de Cáceres (Espanha)
26 - Juvé & Camps (Espanha)
27 - Yalumba (Austrália)
28 - Perelada (Espanha)
29 - Nyetimber (Inglaterra)
30 - Sassicaia (Itália)
31 - Ramón Bilbao (Espanha)
32 - Frescobaldi (Itália)
33 - Château Mouton Rothschild (França)
34 - Ridge (EUA)
35 - Château Musar (Líbano)
36 - Esporão (Portugal)
37 - Faustino (Espanha)
38 - Planeta (Itália)
39 - Codorníu (Espanha)
40 - Bodegas Abadal (Espanha)
41 - Scala Dei (Espanha)
42 - Château Lafite (França)
43 - Louis Latour (França)
44 - Concha y Toro (Chile)
45 - Errázuriz (Chile)
46 - Cloudy Bay (Nova Zelândia)
47 - Opus One (EUA)
48 - Bruce Jack (África do Sul)
49 - Barton & Guestier (França)
50 - Felton Road (Nova Zelândia)