Em 1916 alguns mergulhadores mergulham e encontram o tesouro escondido nas profundezas do mar Báltico. É a carga de um veleiro sueco afundado por um submarino alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Acharam uma carga preciosa: milhares de garrafas de champanhe Heidsieck de 1907 que durante quase um século, permaneceram intactas no fundo do mar, envoltas na escuridão e protegidas por uma temperatura quase constante. Em 2012, após delicadas operações de recuperação, as garrafas começaram a circular rapidamente. Acompanhadas por críticas entusiásticas dos poucos afortunados que as provaram. E por um preço nada mau: 275 mil euros por garrafa.
A história acima é tão real como reais são as experiências de envelhecimento submarino do vinho iniciadas no novo milênio. Com as garrafas armazenadas em estruturas especiais capazes de funcionar como um recife de coral artificial. Deste jeito foram lançadas as bases para um setor ainda de nicho, mas em rápido crescimento. Itália, Espanha, Grécia, Chile e Austrália estão na linha de frente. Um número crescente de produtores aproveita o poder dos ambientes submarinos para conferir aos seus vinhos uma marca singular: desde tintos ousados até champanhes.
Vamos apresentar alguns números. Se em 2021 as garrafas de vinho envelhecidas no mar eram cerca de cem mil, no ano seguinte o número subiu para 400 mil (das quais 150 mil na Itália). Enquanto que em 2023 o número ronda as 700/800 mil unidades.
Os benefícios do envelhecimento do vinho debaixo d'água são evidentes:
- A temperatura constante. Que na maior parte dos fundos marinhos se mantém entre os 10 e os 15 graus.
- O ambiente, ideal para a escassa iluminação.
- O risco de contaminação por oxigênio, praticamente inexistente.
- A superfície de armazenamento gratuita (incluindo o controle de temperatura).
- A pressão elevada perfeita para espumantes e champanhes.
- O sabor dos vinhos envelhecidos em madeira em terra firme e depois imersos no mar. O aumento do carbonato de sódio corresponde a uma maior complexidade.
Hoje em dia, vários grandes nomes praticam o envelhecimento subaquático. Louis Roederer, produtor do champanhe Cristal, ganhou destaque quando, em 2009, decidiu usar as águas ao largo da abadia de Mont Saint-Michel, na França, como adega subaquática. Um ano depois, a Veuve Clicquot, em uma experiência destinada a durar muito tempo, afundou nas águas salgadas do Mar Báltico um precioso cofre cheio de seu champanhe. O primeiro na Itália a apostar no envelhecimento subaquático, em 2008, foi o espumante método clássico Abissi, da vinícola liguriana Bisson que pertence a Piero Lugano.
Mas como si faz na pràtica? O crescimento do setor também se deve à variedade de soluções. Os vinhos são mergulhados em gaiolas submersíveis com sensores acoplados para monitorar eventuais mudanças de temperatura ou a presença de correntes anômalas. Ou então, escolhem-se ânforas seladas ou barris projetados sob medida. As garrafas, revestidas por uma película biodegradável, são submersas por um período médio que, dependendo do tipo de vinho, varia de 6 meses a um ano. Às vezes, muito mais. Há garrafas incrustadas de algas e conchas que estão submersas há 10 anos. As rolhas de cortiça são seladas com cápsulas elásticas. Embora revestida, a rolha de cortiça permite a entrada de oxigénio na bebida, mas não o suficiente para oxidá-la.
A falta de regras num setor ainda novo levou à realização do primeiro congresso sobre vinho subaquático, em 2019, na Espanha. Para uma discussão sobre os riscos ambientais que a técnica poderia criar. Mas os fundos marinhos como refrigerador natural para o vinho são, na verdade, uma escolha sustentável. Uma vez que permitem reduzir as emissões de CO2 e os custos energéticos na adega. Além de economizar solo.
Experiência prática na Itália: Jamin é uma startup fundada em Portofino em 2015 que se dedica à conservação subaquática de vinhos e destilados. A empresa patenteou um sistema de armazenamento subaquático, rastreamento e distribuição (incluindo uma carta de vinhos subaquáticos) para produtores interessados em usar recantos do Mediterrâneo como pequenas adegas. O armazenamento subaquático custa cerca de 12 mil euros, aos quais se somam outros tantos para a operação de extração das garrafas. A subida da gaiola à superfície é muito lenta: a cada dez metros, ele precisa parar, assim como os mergulhadores, que precisam de uma subida gradual. Além disso, há os sistemas de controlo necessários para monitorizar a situação. Eles custam cerca de mil euros cada e precisam ser trocados a cada dois ou três anos devido à salinidade, que prejudica o seu funcionamento.
Esta nova tendência está ganhando adeptos sempre mais famosos no mundo da enogastronomia como o chef escocês Gordon Ramsey que, e próprio restaurante de Londres 1908, colocou no cardápio o primeiro caminho enológico reservado a vinhos envelhecidos somente nas águas do oceano atlântico. Seis vinhos subaquáticos portugueses harmonizando com 6 pratos do estrelado restaurante do Hotel Savoy, servidos em garrafas cheias de pequenos moluscos, crustáceos e corais, tudo pelo preço de 275 libras esterlinas (R$ 1.955,00)