domingo, 26 de julho de 2026

VINHO TINTO NO VERÃO? PODE-SE BEBER UM POUCO MAIS FRIO

Vinho tinto? No verão, bebe-se um pouco mais frio. Uma tendência cada vez mais difundida (e um tabu que já não é mais considerado tal).

Se até poucos anos atrás essa prática era considerada herética pelos sommeliers mais ortodoxos, agora está se tornando uma tendência cada vez mais difundida: o vinho tinto no verão pode ser servido gelado. Perfeito para churrascos, aperitivos e jantares ao ar livre, o tinto “resfriado” se torna uma escolha de estilo, quebrando um dos maiores tabus do serviço. Isso é confirmado por sommeliers de renome, como Paolo Porfidio (Excelsior Hotel Gallia, Milão), segundo o qual “também é agradável saborear uma taça de Brunello di Montalcino ou de Barolo no verão, na temperatura certa”, como Sebastien Ferrara (Enrico Bartolini al Mudec, Milão), que afirma que “servir um grande tinto a uma temperatura em torno de 13-14 °C não é mais um tabu, mas um ato de atenção e acolhimento”, ou como Marco Reitano (La Pergola de Heinz Beck, em Roma), segundo o qual “nosso paladar anseia por frescor; no vinho tinto, todos nós gostaríamos de encontrar um pouquinho de branco”.

Mas essa tendência também é apoiada pelos enólogos. “Pelo meu gosto pessoal, degusto os vinhos tintos entre 15 e 17 graus, não mais do que isso”, explica Riccardo Cotarella, presidente da Assoenologi e um dos mais importantes profissionais italianos. “Em primeiro lugar, sente-se menos o álcool; não há aquele domínio alcoólico que se percebe quando se serve a 20-22 °C; portanto, há mais equilíbrio entre os diversos componentes e também uma melhor percepção da qualidade do vinho”. Leonardo Palumbo (vice-presidente da Union Internationale des Enologues): “trata-se de uma tendência positiva que poderia facilitar o consumo de vinhos tintos entre as novas gerações de consumidores”, enquanto, para Mariano Murru (presidente da Assoenologi Sardegna e enólogo da vinícola Argiolas) “o problema é que, às vezes, os vinhos tintos continuam sendo servidos na chamada temperatura ambiente, mas esquece-se que, por ‘ambiente’, entende-se a temperatura da adega, portanto, decididamente mais baixa do que as que registramos no verão”. E agora as vinícolas italianas também apostam em vinhos tintos criados especialmente para a estação quente, concebidos justamente com o objetivo de serem consumidos depois de um tempo na geladeira.

Afinal, servir um vinho da maneira correta não é um gesto técnico, mas uma forma de respeito. Significa reconhecer que cada garrafa tem um momento exato em que se expressa da melhor forma, e que esse momento muda de acordo com a estação do ano, a luz e o contexto. No verão, mais do que nunca. Segundo Paolo Porfidio, chefe de sommeliers do Excelsior Hotel Gallia, em Milão, um hotel cinco estrelas de luxo, e enólogo "sem cair em extremos ou exageros, é fundamental manter frescos também os vinhos de denominações mais estruturadas. Por exemplo, vinhos importantes como o Brunello di Montalcino ou o Barbaresco podem ser servidos a cerca de 14 °C, até porque, no tempo que leva para abri-los e servi-los, eles já ganham 1 a 2 graus. A conservação, portanto, é fundamental para que cheguem à mesa já na temperatura certa. Se, por outro lado, for um Etna Rosso, um Pinot Noir e, em geral, vinhos com taninos mais suaves e delicados, pode-se baixar a temperatura até 13 °C. É melhor evitar vinhos muito jovens e com taninos muito agressivos; caso contrário, corre-se o risco de perceber uma sensação adstringente. Resumindo, é agradável beber uma taça de Barolo no verão, na temperatura certa, mantendo-o bem gelado, mas obviamente não são vinhos para a praia”.

“Antigamente, para as degustações, servia-se o vinho — destaca Riccardo Cotarella, presidente da Assoenologi e consultor de mais de 80 importantes vinícolas na Itália e no mundo — com o termômetro indicando temperatura ambiente, mas se estiver fazendo 25 graus, ou até mais, uma temperatura que no verão é perfeitamente normal, essa não é a melhor maneira de apreciar um vinho tinto no verão; o vinho tinto deve ser servido mais fresco, pois ele esquenta rapidamente no copo. Se for inverno, e o ambiente não estiver quente, pode-se servi-lo um pouco mais quente. De qualquer forma, para o meu gosto pessoal, eu degusto os vinhos tintos entre 15 e 16 graus, não mais do que isso. Primeiro, sente-se menos o álcool, não há predominância alcoólica como se fosse servido a 20-22 °C; portanto, há mais equilíbrio entre os diversos componentes e também uma melhor percepção da qualidade do vinho. Meu vinho tinto de verão por excelência? “Teor alcoólico não muito elevado, que não tenha uma grande estrutura tânica, bastante suave, mas, de qualquer forma, não banal, com uma personalidade que se expressa na elegância e no equilíbrio”.

O fenômeno dos tintos para serem servidos mais frios, no entanto, não é apenas italiano: do outro lado do oceano, fala-se abertamente de “chillable reds”, tintos suculentos para serem servidos frios que disputam com os brancos e os roses o título de vinho símbolo do verão. Nos Estados Unidos, observa-se uma verdadeira tendência em direção a tintos mais leves, ideais para a estação quente, escolhidos por se alinharem a um estilo de vida marcado por refeições leves, culinária vegetariana e menor consumo de álcool. Isso é demonstrado pela vinícola californiana Field Recordings, que produz o Freddo, um Sangiovese 100% concebido especialmente para ser servido em baixas temperaturas, em garrafa transparente, justamente para destacar sua natureza “verão” já desde a embalagem.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

FINE WINES: GIGANTE COM OS PÉS DE ARGILA

 Os antigos sistemas de avaliação de vinhos finos – medalhas, pontuações e resenhas anônimas – perderam força. O consumidor quer entender o valor real, não aquele determinado por um selo.

Por mais de um século, atuamos dentro de um contexto econômico tranquilizador e previsível: crescimento linear, endividamento em expansão, custos em alta e uma busca constante pelo consumo. Dentro desse ecossistema inflacionário, o setor de vinhos de luxo encontrou seu habitat ideal, aprendendo a falar uma linguagem composta por escassez artificial, classificações de excelência, barreiras à entrada e a produtos premium como dogma indiscutível. Mas e se todo esse castelo de crenças se apoiasse em fundamentos ultrapassados?

Recentemente a analista Priscilla Hennekam levanta uma questão tão incômoda quanto urgente: a tecnologia caminha em direção diametralmente oposta à inflação. A automação, a inteligência artificial e as plataformas digitais atuam estruturalmente para reduzir custos, otimizar a distribuição e gerar abundância. Assim, nos encontramos suspensos em um limbo instável, presos entre um sistema financeiro que precisa desesperadamente elevar os preços e uma força tecnológica subjacente que pressiona continuamente para reduzi-los.

O mundo dos FINE WINES não está imune a essa força gravitacional. Pelo contrário, corre o risco de ser arrastado por ela se continuar a usar códigos de comunicação de uma época que está desaparecendo.

O primeiro pilar a vacilar diante dos impactos da era da informação é a autoridade da competência. Historicamente, o mercado de vinhos de alta gama se estruturou em um modelo assimétrico: o especialista (o crítico, o sommelier, a instituição) detinha o conhecimento, e o consumidor final precisava ser “educado” para compreender o valor de uma garrafa. Hoje, o acesso ao conhecimento foi totalmente democratizado. Um usuário comum pode consultar um modelo de inteligência artificial e obter, em poucos segundos, uma análise comparativa sobre um Barolo ou um Borgonha, compreender o conceito de viticultura regenerativa ou entender as diferenças de microclima entre dois vinhedos, tudo isso em uma linguagem acessível e sem aquela arrogância acadêmica que muitas vezes afasta quem não é especialista no assunto.

Como destaca Hennekam, a tecnologia atua como um agente deflacionário sobre os dados: quando a informação se torna abundante, o valor se desloca para outro lugar. O problema atual não é mais saber onde encontrar um conceito, mas em quem se pode confiar. Em um mundo saturado de respostas imediatas, a confiança se torna o verdadeiro bem escasso, e os antigos sistemas de validação — medalhas, pontuações em centésimos e avaliações infalíveis — perdem progressivamente força diante de um consumidor que deseja compreender o valor real, e não aquele determinado por um selo.

O consumidor não raciocina em compartimentos estanque; ele vive sua vida e aloca seus recursos onde percebe uma forte conexão emocional. Na era da abundância, em que quase tudo é facilmente substituível ou replicável, o vinho não pode mais se dar ao luxo de ser dado como certo apenas por se autodefinir como “premium”. Muitas vezes os produtores demoram a entender que os vinhos finos não competem apenas com outras garrafas na prateleira ou em leilões: eles competem, em um sentido muito mais amplo, com todo o panorama das experiências e dos bens que definem a identidade contemporânea. Quem dispõe de um alto poder aquisitivo hoje avalia a compra de um grande vinho comparando-a com uma viagem, um tratamento de bem-estar, um acessório de alta costura, um festival de música ou um dispositivo tecnológico de última geração.

Se a escassez não é mais um valor absoluto — pois, aos olhos das novas gerações, corre o risco de parecer um conceito artificial e manipulado —, como pode sobreviver o conceito de vinho de alta gama? Para continuar relevante em um mundo potencialmente deflacionário, o vinho de excelência precisa deixar de vender status e começar a transmitir algo que a tecnologia não pode automatizar: a autenticidade do relacionamento, o vínculo irrepetível com um território e a capacidade de gerar uma emoção coletiva. Não se tratará mais de demonstrar que se sabe mais do que o próprio cliente, mas de ser capaz de criar uma experiência significativa que as pessoas desejem guardar e compartilhar. O futuro do setor pertence àqueles que souberem abandonar a retórica da exclusividade como fim em si mesma para abraçar a da relevância cultural.

domingo, 12 de julho de 2026

VINHO ROSE, MERCADO EM CRESCIMENTO: em 2032, o valor ultrapassará os 5 bilhões de dólares

Se, no mundo, “vinho rose” ainda é, acima de tudo, sinônimo de verão e da Provença (a ponto de, desde 2018, por iniciativa do Conseil Interprofessionnel des Vins de Provence, celebrar-se mundialmente o “International Rosé Day” toda quarta sexta-feira de junho — e, em 2026, no dia 26 de junho), a Itália responde com seus roses de diversas regiões e variedades de uvas, do Cerasuolo d’Abruzzo aos vinhos da Valtenesi, dos rosés da Puglia (onde nasceu, em 1943, o primeiro vinho rose engarrafado da Itália, o famosíssimo “Five Roses” de Leone de Castris, cujo museu da empresa acaba de entrar para a rede “Museimpresa”) até o Chiaretto de Bardolino, e ainda por muitas outras variedades que vão do Alto Adige à Sicília, passando por “novidades” mais ou menos recentes, como a versão rose do Prosecco DOC, por exemplo, até o “recém-lançado” Chianti DOCG na versão rose.  Os vinhos roses ainda são relativamente um produto de “nicho”, embora, segundo diversos estudos, representem 10% do consumo mundial (sendo a França o principal país produtor, à frente da Itália e dos EUA) e, em um contexto difícil e desafiador para o mercado do vinho, pareçam destinados a crescer graças à sua leveza (também em termos de teor alcoólico, geralmente inferior à média).

É o que afirma, pelo menos, o estudo sobre o tema realizado pela empresa de pesquisa ReAnIn, segundo o qual, se o mercado de vinhos roses movimentou 3,5 bilhões de dólares em 2025, ele crescerá 5,1% ao ano até 2032, ultrapassando os 5 bilhões de dólares; em particular, explica o relatório, embora o vinho rose continue muito associado ao verão, 30% dos consumidores de vinho o escolhem durante todo o ano, devido à sua versatilidade em harmonizações gastronômicas e ocasiões de consumo, mas também, justamente, porque é percebido como um vinho mais “leve e saudável”, a ponto de 28% dos consumidores preferirem-no a outros vinhos justamente por seu teor alcoólico mais baixo. E com 35% dos consumidores cada vez mais atentos à qualidade, ao artesanato e à origem regional, dando preferência a marcas da categoria premium.

terça-feira, 7 de julho de 2026

MAIS BRANCO E MENOS TINTO: COMO MUDA A PRODUÇÃO DE VINHO NA ESPANHA

O panorama do consumo de vinho está mudando, uma tendência já em voga há algum tempo, com os apreciadores de vinho se voltando, cada vez mais, para vinhos fáceis de beber, com menor teor alcoólico, e que, por consequência, se alinham à tendência da leveza na taça, que agrada cada vez mais e à qual os vinhos brancos, por suas características, se adaptam melhor do que os tintos. Uma mudança no consumo que está, consequentemente, repercutindo também na esfera produtiva, com o segmento dos vinhos brancos recuperando cada vez mais terreno, a ponto de superar, em alguns casos, os volumes dos vinhos tintos que, historicamente, sempre ocuparam a maior fatia do mercado. Uma “ultrapassagem” que já ocorreu também na Espanha, a terceira potência vinícola mundial depois da França e da Itália, e que vem se ampliando, representando um forte sinal proveniente de um país que está entre os “grandes” do vinho, terra de denominações de origem prestigiadas como Rioja, Ribera del Duero e Priorat, entre tantas outras.

De acordo com a Vinetur, o vinho branco representou 57% da produção vinícola espanhola até abril da safra 2025-2026, segundo dados analisados pela Organização Interprofissional do Vinho da Espanha (OIVE), um sinal de que a oferta vinícola do país continua se afastando dos tintos e dos roses. Durante um webinar, Begoña Olavarría, diretora do Departamento de Inteligência Econômica e Mercados, explicou que a participação do vinho branco aumentou quase 8 pontos em comparação a safra de 2017-2018. Os vinhos tintos e roses, somados, representam 42,9% da produção, com base nos dados da Infovi analisados pela organização.

A mudança ocorre em um momento em que o consumo de vinho na Espanha continua em declínio. A Oive explicou que o consumo em abril caiu 6,1% em relação ao mesmo mês de 2025, para 9,2 milhões de hectolitros, e que, embora o consumo de vinho branco tenha se mantido estável, o de vinhos tintos e roses diminuiu.

terça-feira, 30 de junho de 2026

PREVISÃO IWSR: O Consumo mundial de vinho vai diminuir de 14% até 2035

A empresa de pesquisa de mercado especializada em bebidas alcoólicas IWSR prevê uma queda de 14% no consumo global de vinho até 2035. Em um novo relatório, a empresa afirma que o consumo total de álcool diminuirá inicialmente até 2031. Posteriormente, haverá uma ligeira recuperação e o consumo se estabilizará em torno do nível de 2025. De acordo com as previsões, os destilados e a cerveja sofrerão o mesmo declínio que o vinho, enquanto as bebidas mistas prontas para beber, conhecidas como Ready-To-Drinks (RTD), apresentarão um aumento significativo.

Entre as razões para essas mudanças, a IWSR cita uma reavaliação do mercado mundial e um crescimento da população em idade legal para consumir álcool. Os mercados em crescimento particularmente interessantes são, portanto, Índia, Colômbia, Vietnã e México, enquanto na China, nos Estados Unidos, no Japão, na Alemanha e no Reino Unido o consumo de bebidas alcoólicas é significativamente menor. De acordo com as previsões, a Índia ultrapassará os Estados Unidos até 2032 e se tornará o segundo maior mercado de bebidas alcoólicas, atrás apenas da China.

Além disso, a IWSR publicou seus dados finais para 2025. Para isso, foram analisados os dados de 160 países. O consumo de vinho diminuiu 5% em relação ao ano anterior. Esse valor é quase o dobro do divulgado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) em seu relatório anual onde se registrava uma diminuição de 2%. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O VERDADEIRO PROBLEMA DO CONSUMO DE VINHO É O PREÇO, NÃO A GERAÇÃO Z

Os dados desmentem a narrativa de que a Geração Z é uma geração que não bebe: o número de jovens que consomem vinho está aumentando, e não diminuindo. Um painel de profissionais americanos e os dados italianos do Observatório UIV–Vinitaly 2026 apontam para outra direção: a queda estrutural no consumo de vinho depende da pressão sobre os preços, da erosão do poder de compra e, no mercado americano, do impacto das tarifas.

De acordo com os dados divulgados pela Gossip Wine (Millennials e Geração Z: o futuro do vinho em 2026) e confirmados pela Bighammer Wines (Tendências do Vinho 2026: o que realmente estamos observando no setor de compras), a porcentagem de jovens adultos da Geração Z que afirmam ter consumido vinho nos últimos seis meses passou de 46% em 2023 para 70% em 2025. Em apenas dois anos. O IWSR registra o mesmo aumento acentuado. O Wine Market Council acrescenta que a proporção de consumidores de vinho da Geração Z cresceu cinco pontos percentuais nos últimos dois anos. E os Millennials ultrapassou oficialmente a Geração Baby Boomer como principal grupo de consumo nos Estados Unidos, representando hoje 31% contra 26%.

Na Itália, o quadro é consistente. O Observatório UIV – Vinitaly 2026, que analisou os dados de consumo com base em informações do Istat e do IWSR e foi apresentado justamente na Vinitaly 2026, mostra que os consumidores de vinho em nosso país somam pouco menos de 30 milhões, o que representa 55% da população, com números estáveis nos últimos cinco anos e até mesmo em crescimento em relação a 2011. A surpresa? A faixa etária de 18 a 24 anos é a única que registrou um crescimento significativo em sua parcela de consumidores, com um aumento de oito pontos percentuais. Os jovens consumidores de vinho passaram de 39% para 47% dessa faixa etária.

Então, de onde vem essa narrativa de que a Geração Z não bebe mais vinho? De uma coincidência temporal que gerou um bode expiatório conveniente. A queda estrutural da demanda em muitos mercados ocidentais começou a se manifestar por volta de 2019, quando a Geração Z ainda era demograficamente irrelevante como força de consumo. O que está mudando, se é que há alguma mudança, é a forma de consumir. Os consumidores mais jovens compram menos garrafas, mas experimentam mais. A descoberta do vinho ocorre por meio das redes sociais e das experiências de viagem, e não por meio de revistas especializadas ou das notas dos críticos. Eles buscam histórias autênticas, práticas sustentáveis e formatos práticos. Uma nota 98 em 100 do Robert Parker vale menos do que um reel envolvente e uma vinícola que saiba se comunicar com transparência. O problema é que o setor ainda não se preparou adequadamente para encontrá-los onde eles estão.

Se a Geração Z não é o problema, então onde está o problema? Uma parte significativa da resposta está no preço. Alessandro Rossi, Gerente Nacional da Categoria Vinhos da Partesa, descreve com precisão o fenômeno em curso na Itália (“É assim que as escolhas dos italianos na taça estão mudando”: o panorama da Partesa sobre o consumo em 2025): “Confirmou-se a desaceleração do consumo e o fenômeno do ‘trading down’ em algumas ocasiões de consumo, já observado em 2024, principalmente devido a um poder de compra que continua sob pressão e a um clima de incerteza generalizada que ainda não se dissipou”. A pressão sobre o poder de compra não afeta apenas os jovens na faixa dos 20 anos: ela atinge famílias, consumidores habituais, toda aquela faixa intermediária que, até alguns anos atrás, comprava uma garrafa de 15 a 20 euros sem pensar muito e que hoje, ao contrário, pensa sim, e muito.

Os dados coletados pela Attest (Preços altos, porções pequenas: como a crise do custo de vida está prejudicando as vendas de bebidas alcoólicas) em dois mercados chave, o Reino Unido e os Estados Unidos, confirmam a tendência com uma severidade que não deixa margem para interpretações tranquilizadoras. No mercado americano, quase metade dos entrevistados afirma beber bebidas alcoólicas com menos frequência, 24% pararam completamente e 47% consideram a compra de bebidas alcoólicas uma prioridade baixa. Entre aqueles que estão reduzindo os gastos por garrafa, o principal motivo declarado é inequívoco: “Não tenho condições de gastar tanto quanto antes”.

Há ainda uma terceira dimensão do problema dos preços, específica do mercado americano, que diz respeito ao impacto das tarifas. A Bighammer Wines explica isso com clareza: o aumento afeta o preço na importação e, em seguida, sofre a margem de lucro do distribuidor e um acréscimo adicional por parte do revendedor ou do restaurante.

Três dinâmicas diferentes, portanto: poder de compra reduzido, percepção do preço como risco e efeito multiplicador das tarifas. 

É surpreendente notar como, nesse cenário, a Geração Z parece mais uma variável de esperança do que de crise. Eles são a geração que mais cresce em termos percentuais, entram no mercado com curiosidade e abertura, buscam experiências autênticas e estão dispostos a gastar quando se sentem incluídos e não julgados. O que eles exigem (preços acessíveis, hospitalidade genuína, comunicação sem esnobismo) é exatamente o que uma vinícola já deveria oferecer a qualquer consumidor.

A queda real no consumo tem várias causas: o envelhecimento dos consumidores habituais, a pressão econômica que restringe os gastos e a fragmentação em direção a outras bebidas. Mas quando as gerações mais velhas acusam as mais jovens de não entenderem de vinho e estas respondem da mesma forma, acaba-se discutindo sobre um bode expiatório em vez de lidar com o problema.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O VALOR DO VINHO NO AGROALIMENTAR ITALIANO

O setor agroalimentar italiano, verdadeira riqueza do “Made in Italy”, gerou, em 2025, 80,1 bilhões de euros em valor de produção, um aumento de 3,9% em relação aos 77,1 bilhões de 2024. Ao mesmo tempo, porém, também a balança comercial da agricultura e dos produtos alimentícios — e, portanto, a diferença entre o valor econômico das exportações e o das importações —, embora tenha diminuído significativamente em relação a 2024, permanece positiva, ultrapassando 2 bilhões de euros em 2025 (era de 5,4 bilhões de euros em 2024). E, embora o saldo comercial dos produtos agrícolas e pecuários permaneça historicamente negativo (-13,3 bilhões de euros em 2025), quem sustenta toda a balança agroalimentar nacional é a indústria de processamento de alimentos e, portanto, a rubrica “alimentos e bebidas”, cujo saldo comercial é positivo em 15,4 bilhões de euros — um valor apenas ligeiramente inferior ao de 2024 (15,8 bilhões de euros), o que demonstra que a queda anual adicional dos produtos agropecuários (quase 3 bilhões de euros entre 2024 e 2025) foi o que influenciou concretamente o resultado final do saldo comercial da agricultura e dos produtos alimentícios.

O vinho italiano, nesse contexto, desempenha um papel fundamental, sendo um produto totalmente voltado para a exportação e, obviamente, com grande apelo internacional. De acordo com os dados do Istat a balança comercial do vinho italiano em 2025 é de 7,2 bilhões de euros, resultado de 7,7 bilhões em exportações e 565,6 milhões de euros em importações. Portanto, segundo os cálculos, o vinho representa 46,7%, quase a metade, da rubrica “alimentos e bebidas”, que gera a balança comercial positiva do setor agroalimentar italiano.

Como destaca o Istat, na Itália, “de modo geral, desde a Unificação, o saldo comercial dos produtos agropecuários tem sido quase sempre negativo. No entanto, a Itália também é um país de transformação, e nos últimos quinze anos o setor industrial registrou saldos positivos crescentes, a ponto de levar, a partir de 2018, o saldo de todo o setor agroalimentar para o positivo”. Um resultado para o qual o vinho deu uma contribuição decisiva. Mais uma demonstração de que o vinho é um produto fundamental para o setor agroalimentar italiano, que constitui um recurso para as exportações e para a economia nacional.