As cartas de vinhos dos restaurantes "estrelados" muitas vezes revelam menos identidade do que prometem. Entre grandes casas vinícolas, alocações, distribuição e medo do risco, muitas cartas acabam se parecendo. O problema não é a presença dos grandes nomes, mas sim quando o status substitui o pensamento, a narrativa e a relação real entre o vinho, a cozinha e o cliente.
A análise de Sara Danese, intitulada “I Looked at 1,000 Wine Lists. The Data Says the State of Fine Wine is Boring and Overpriced”, após o estudo de 1.063 cartas de vinhos de restaurantes com estrelas Michelin, retrata um panorama bastante claro: nos locais onde o vinho deveria brilhar, muitas vezes ele acaba ficando comportado, arrumadinho, caríssimo e um pouco previsível. Krug e Dom Pérignon aparecem em 42% das cartas analisadas. Entre os produtores mais presentes, encontram-se Château d’Yquem, Gaja, Bollinger, Louis Roederer, Sassicaia, Château Margaux, Ruinart, Domaine Leflaive, Mouton Rothschild, Vega Sicilia, Domaine de la Romanée-Conti e Haut-Brion.
Todos nomes de peso. Garrafas que fizeram história. Ninguém em sã consciência questionaria a grandeza do Krug. Mas fica uma pergunta: por que as cartas dos restaurantes mais ambiciosos do mundo acabam se parecendo tanto?
A resposta mais fácil é culpar o cliente. Ele quer uma marca conhecida, uma garrafa confiável, um rótulo que não exija explicações. É verdade. Mas essa interpretação deixa de lado o aspecto mais interessante: a distribuição. Uma carta de vinhos é também o resultado da disponibilidade, das alocações, das relações comerciais, do portfólio, dos importadores e das condições de compra. A poesia do terroir, mais cedo ou mais tarde, passa por uma planilha do Excel. E é aí que ela perde um pouco do seu aroma.
Certos vinhos não se compram simplesmente porque o sommelier os quer. Eles são conquistados. E, para conquistá-los, muitas vezes é preciso aceitar um sistema de trocas: você compra algumas garrafas, coloca outras na carta de vinhos, garante a rotatividade de certos produtos e, talvez, consiga o que realmente lhe interessa.
Quer aquele champanhe de um pequeno produtor que deixaria o sommelier encantado? Primeiro, abra espaço para a grande casa. Quer algumas garrafas de um Borgonha raro? Precisa provar que aquele vinho é útil para o restante do portfólio. Quer manter certas alocações? Alguns rótulos precisam permanecer visíveis, mesmo que vendam pouco.
Muitos cartas de restaurantes "estrelados" parecem entediantes também porque o sistema torna o tédio vantajoso. A inovação, por outro lado, exige esforço, relacionamentos e alguns riscos comerciais.
Uma das observações mais relevantes do artigo de Danese diz respeito justamente à diferença entre presença e vendas. Alguns grandes fabricantes estão presentes em todos os lugares, mas, segundo vários depoimentos, podem representar uma parcela mínima das vendas efetivas. Isso só parece estranho à primeira vista. Certas garrafas não estão na carta apenas para enfeite, mas também para transmitir uma mensagem. Elas transmitem prestígio ao cliente, enquanto ao mercado indicam que o restaurante atua em uma determinada categoria.
Uma carta de vinhos com Krug, Dom Pérignon, DRC, Sassicaia, Yquem e alguns châteaux de Bordeaux transmite imediatamente uma sensação de solidez. Talvez o cliente acabe pedindo outra coisa. Talvez essas garrafas fiquem na prateleira por meses. Mas, enquanto isso, elas cumprem seu papel.
O problema surge quando o status substitui a identidade.
Vender Dom Pérignon é fácil. O cliente conhece o nome, entende o que representa e se sente seguro. Vender um champanhe de uma pequena casa é outra história: é preciso explicá-lo, contextualizá-lo e servi-lo no momento certo. Isso exige presença na sala e uma cozinha capaz de dar sentido a ele.
Há ainda um equívoco a esclarecer: o restaurante "estrelado" não se destina apenas aos clientes habituais de alto poder aquisitivo. Muitas vezes, é também o local ideal para uma experiência anual, um aniversário especial, uma data comemorativa ou um jantar agendado após uma boa reflexão. Nesse contexto, o cliente entra para viver uma experiência. E é justamente aí que faria sentido encontrar alternativas inteligentes, garrafas capazes de abrir novas possibilidades, escolhas que proporcionem prazer sem obrigar ninguém a ligar para o contador entre a entrada e o primeiro prato.
O preço, por sua vez, complica tudo. Um cliente que entra em um restaurante com estrelas sabe que não está em uma trattoria e sabe que aquele restaurante tem custos enormes: equipe, salão, cozinha, pesquisa, adega, serviço. Ninguém espera uma carta de vinhos barata. No entanto, uma lista composta apenas por rótulos conhecidos expõe o restaurante a um problema evidente: o cliente conhece esses nomes, talvez tenha pesquisado o preço online, talvez os tenha encontrado em uma loja de vinhos ou em outros estabelecimentos. A comparação é imediata e, muitas vezes, dolorosa.
As etiquetas menos conhecidas, se bem escolhidas e bem apresentadas, podem abrir um espaço diferente. Elas são menos comparáveis, menos pressionadas pelo preço “real” que o cliente pensa conhecer, e têm mais liberdade para serem avaliadas dentro da experiência do restaurante. É claro que isso requer confiança. Requer um sommelier capaz de explicar e uma carta de vinhos pensada para harmonizar.
Resumindo, uma carta de vinhos deve ser uma declaração de intenções. Ela deveria revelar quem você é, para onde deseja levar o cliente e qual é a sua visão sobre a relação entre vinho e culinária.
Se nos restaurantes onde o vinho deveria se expressar da melhor forma possível encontramos frequentemente os mesmos produtores, as mesmas regiões, os mesmos preços elevados e as mesmas garantias, a responsabilidade é compartilhada. Pesam a distribuição, as alocações, as expectativas dos clientes e o papel das grandes marcas. E, além disso, as escolhas dos chefs e sommeliers são importantes, pois mesmo dentro de um sistema condicionado sempre há espaço para decidir que experiência criar.