terça-feira, 24 de março de 2020

VINHOS ROSADOS E SUAS HARMONIZAÇÕES

No universo dos vinhos sem sombra de dúvida os rosados são os menos considerados pelo consumidores em geral: talvez por falta de conhecimento, talvez por serem uma via do meio entre os brancos e os tintos, muitas vezes estes vinhos sofrem de preconceitos e são considerados como vinhos de baixa qualidade. Na realidade estes vinhos frescos e perfumados foram descreditados pelo grande público por dois motivos principais: 1) a falta de conhecimento de como estes vinhos são produzidos induz o consumidor a pensar que são produtos feitos "manualmente" e com matérias primas de baixa qualidade; 2) muitos proprietários de bares e restaurantes para tentar ganhar um dinheiro fácil misturavam (mas infelizmente esta prática ainda acontece mais que deveria) vinhos tintos e brancos de baixa qualidade oferecendo aos clientes vinhos que chamavam de rosés, mas que nada tinham a ver com o verdadeiro vinho rosé.
Vamos tentar fazer um pouco de clareza quanto a produção dos vinhos rosés: são vinhos a pleno título, obtidos com métodos de vinificação bem específicos conforme as varias legislações dos países produtores, por isso não menos qualitativos de qualquer outro vinho branco ou tinto. Os rosés (ou rosados) são produzidos em todos os países do mundo onde existem uvas viníferas tintas e a própria cor (maior ou menor intensidade de rosa) é devido ao tempo que as cascas ficam em contato com o mosto (normalmente a maceração varia de 24 à 36 horas) e a quantidade de pigmentos corantes (antocianinas) presentes nos vários tipos de uvas. 
Como falei antes todos os países que plantam uvas viníferas podem produzir vinhos rosés porém existem algumas regiões onde estes vinhos constituem a maioria da produção total. É o caso de algumas áreas da França, mais especificadamente na parte meridional do País, onde a produção de vinhos rosados virou uma tradição e um simbolo de distinção: no vale do Rhône existe uma discreta produção de vinhos rosados obtidos principalmente das castas Grenache e Cisnault, mas também da Syrah, Mourvedre e Carignan nas regiões de Tavel. Lirac. Vacqueyras, Gigondas, Coteaux de Tricastin, Cotes du Vivarais e Cotes du Luberon. No Languedoc-Roussillon, área muito conhecida pela produção dos famosos vinhos doces naturais (vins doux naturels), também, são produzidos vinhos rosados a partir das castas Carignan, Grenache, Cisnault, Mourvedre e Syrah, com destaques para os vinhos de Collioure, Minervois, Saint-Chinian, Cotes du Russillon, Faugeres e Coteaux de Languedoc. A região mais conhecida da França pela produção de vinhos rosados, que representam mais do 75% de todos os vinhos da área, é a Provence, na parte merdional, onde as uvas Grenache, Syrah, Cisnault, Carignan, Mourvedre e Tibouren. Entre as áreas da região mais famosas por estes tipos de vinhos podemos citar Coteaux d'Aix-en-Provence, Les Baux-de-Provence, Cotes de Provence, Palettes, Cassis, Coteaux Varois, Bellet e Bandol, estes últimos envelhecidos em madeira.
Já na Itália a produção deste vinho não é tão expressiva porém deve-se observar que vários disciplinares de produção dos vinhos DOC já preveem vinhos rosados. A região de maior tradição de vinhos rosés é, sem sombra de dúvida, a Puglia , que produz excelentes vinhos a partir das castas Negroamaro e Malvasia Nera e vale a pena destacar os rosés do Salento, o Salice Salentino rosado, l'Alezio rosado e o Castel del Monte rosado, único vinho DOCG rosado da Itália. Sempre ficando no Sul a Calabria também tem um vinho rosado bem conhecido, o Cirò rosado obtido de uvas Gaglioppo e na Campania encontramos vinhos rosados oriundos da casta Aglianico como o Aglianico del Taburno rosado e o Lacryma Christi del Vesuvio rosado, este ultimo obtido com uma pequena porcentagem da casta Piedirosso. Já no norte da Itália é a área oriental auqle mais votada a produção de vinhos rosados: a mais conhecida é aquela do Lago di Garda onde são produzidos o Grada Chiaretto a partir de uvas Groppello e o Bardolino Chiaretto com uvas Carvina, Rondinella e Molinara.
Fora da Itália e França, mas sempre na Europa,  encontramos produções importantes de vinhos rosés na Espanha, especialmente nas áreas do Rioja, Ribeiro del Duero e Navarra, a maioria destes vinhos obtidos s partir das castas Tempranillo e Garnacha.
Em termo de harmonização os vinhos rosados oferecem interessantes oportunidades, são extremamente versáteis e aptos a serem associados àqueles pratos onde um vinho branco seria aquém e um tinto além, graças ao baixo conteúdo de taninos e a sua jovialidade e ao fato de poderem ser servidos a mesma temperatura dos brancos. Normalmente falamos dos vinhos rosados como aqueles que tem as mesmas características aromáticas dos tintos com a vantagem de servem servidos como brancos, e por isso a gama de harmonizações se amplia muito, compreendendo entradas, pratos de massa, risotos, carnes e até queijos.
Uma das características principais dos vinhos rosés é o frescor dos aromas, os mesmos que são típicos dos vinhos tintos jovens porém, como já falei, já que esta tipologia de vinhos é uma via de meio entre os brancos e os tintos, se apresentam características tipas dos dois, mas com menor incisividade, poe exemplo os rosados tem uma discreta acidez, menor que nos brancos mas mais persistentes que nos tintos, e uma maior maciez, apresentando também uma leve adstringência (característica típica dos tintos). Graças a maior maciez e a uma acidez equilibrada os vinhos rosados são ótimos acompanhamentos para os pratos de massas com molhos de tomate, para as massas recheadas e ao forno e também para as pizzas em geral. Sendo mais estruturados que os brancos mas com menos taninos que os tintos e por isso menos adstringente, os rosados são perfeitos nas preparações de pratos a base de peixes, em especial para as sopas de peixe ou peixes assados e bem aromatizados. Podem também serem harmonizados com cogumelos e com queijos frescos e não curados. Podem também acompanhar pratos de carne, especialmente as brancas, sejam elas assadas ou saltadas na panela, mesmo acompanhadas por cogumelos ou trufas. O segredo para harmonizar um vinho é conhecer bem o prato que o deve acompanhar, mas pessoalmente acho que os vinhos rosados são perfeitos como aperitivos pois podem ser servidos em temperaturas baixas e por serem, mediamente, de teor alcoólico moderado.

segunda-feira, 2 de março de 2020

BORGONHA - A FRANÇA DO GLAMOURE

A Borgonha é uma pequena região localizada na área centro oriental da França, geograficamente delimitada ao norte pela cidade de Dijon e que se estende por, aproximadamente, 50 km ao sul e, sem sombra de dúvida, uma das áreas enológicas mais conhecidas no mundo pela elegância e complexidade de sues vinhos, principalmente produzidos de uvas Chardonney e Pinot Noir, e pela fama e valor que estes vinhos ganharam ao longo dos anos. Não é a toa que 6 produtores da Borgonha fazem parte da última Liv Ex Power 100 que classifica as grandes marcas de vinho com base em diversos critérios que dizem respeito a preços, volumes, valores contratados, e número de referências tratadas.
A localização geográfica e o clima da região são as características principais pela qualidade dos vinhos: deve-se considerar que a Borgonha é um dos lugares mais a norte no mundo onde se produzem vinhos tintos de qualidade e o Chardonnay e o Pinot Noir exprimem suas melhores características em climas frescos como aquele que se encontra, justamente, nesta região. Porém latitudes tão elevadas nem sempre são uma vantagem, pois as adversidades climáticas podem levar a safras desfavoráveis onde o amadurecimento do vinho é comprometido alterando as características gustativas-olfativas.
Enquanto os Chateaux dominam Bordeuax na Borgonha os demaines são de casa: ao contrário do que acontece em Bordeaux, aqui não representam uma única propriedade composta de vinhedos geralmente colocados nos arredores do chateaux, mas sim um conjunto de vinhedos, até muito pequenos, deslocados em várias áreas do mesmo território, as vezes longe um do outro e em denominações diferentes. Estes terrenos pertencem a uma única empresa e as uvas são vinificadas separadamente de modo a refletir as características de cada área específica. 
O terroir é um conceito extremamente importante na Borgonha e aqui como em nenhum outro lugar do mundo o zonamento representa a essência da enologia da região.
Além do Chardonnay e do Pinot Noir na Borgonha se cultivam também a uva Aligoté (uva branca do Maconnais utilizado para produzir vinhos comerciais e de mesa presentes no Cremant de Bourgogne) e a Gamey, conhecidas uvas tintas que da origem aos famosos vinhos Beaujolais.
Para dizer quanto esta região é tão importante dentro do cenário enológico francês temos que analisar mais a fundo a classificação da Borgonha e, realizamos, que o sistema de classificação aqui é diferente d outras áreas da França. Na Côte d'Or são previstas quatro categorias distintas: as Appelations Regional (Bourgogne Rouge e Bourgogne Blanc) produzidos com uvas provenientes de diferentes propriedades e fazendo blend com vinhos produzidos em vários territórios da região. Um degrau acima temos as Appelations communal ou seja os Villages que se destinam aos vinhos produzidos em uma única área específica estabelecida pelo disciplinar de produção. Na etiqueta principal os vinhos devem evidenciar o nome do vilarejo (Beaune, Chambolle-Musigny, Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet, Nuits-St.Georges, Vosne-Romanée etc.). As categorias superiores preveem a diferenciação dos vinhos por vinhedo. A menção Premier Cru atualmente é destinada à 562 vinhedos (climat) que representam, aproximadamente, o 11% da produção total da Borgonha. O nome do vinhedo é evidenciado, na etiqueta principal, logo atrás do nome do vilarejo onde está localizado. A topo da piramide qualitativa é representada pela classificação Grand Cru representada atualmente por, apenas, 33 vinhedos (2% da produção total da região) e nestes casos na etiqueta principal só é evidenciado o nome do vinhedo sem o nome do vilarejo de localização (Batard- Montrachet, Clos de Veugeot, Echezéaux, La Romanée, La Tâche etc.)
Quanto as áreas de produção a Borgonha pode ser dividida em 5 sub áreas distintas:


  1. CHABLIS - Esta sub área é localizada a 180 Km ao sul de Paris e a, aproximadamente, 100 Km ao norte da área principal da Borgonha e a somente 40 Km da região de Champagne. Se produzem exclusivamente vinhos bracos a partir da casta Chardonnay, frescos e muitas vezes caracterizados por aromas minerais. Normalmente são fermentados e afinados em tanques de aços inox, tendo características gusto-olfativa mais básicas.
  2. CÔTE d'OR - Compreende a área geográfica que vai da cidade de Dijon até Santenay sendo esta a área mais famosa da Borgonha: todos os vinhos Premier Cru e Grand Cru são produzidos nesta sub área. A Côte d'Or è, por sua vez, dividas em duas micro regiões: A Côte de Nuits ao norte e a Côte de Beaune ao sul. Na Côte de Nuits, localizado no norte, a uva rainha é a tinta Pinot Noir mas também estão presentes pequenas produções de vinhos brancos oriundos de uvas Chardonnay, Pinot bianco e Pinot grigio. Aqui também o território é divididos em vilarejos com as próprias classificações específicas: entre as mais importantes lembramos a Chambolle-Musigny, Fixin, Gevrey-Chambertin, Marsennay, Morey-Saint-Denis, Nuits-Saint-Georges, Vosne-Romanée e Vougeot. Entre os Grand Cru vale a pena lembrar o Bonnes Mares,Chambertin,  Chambertin-Clos de Beze, Clos de Roche, Grands Echezeaux, Clos de Veugeot, Musigny, Richebourg, Romanée Conti e La Tache. Em um nível mais baixo achamos as denominações Côte de Nuits Villages e Hautes-Côtes de Nuits cujos terrenos encontram-se em altitudes maiores e resultam em vinhos de menor prestigio. Já a Côte de Beaune identifica a área meridional da Côte d'Or e se produzem principalmente vinhos brancos oriundos de uvas Chardonnay, entre o melhores do mundo, e alguns vinhos tintos também, mas muito menos conhecidos. Entre os vilarejos da Côte de Baune lembramos Aloxe-Corton, Auxey-Duresses, Beaune, Blagny, Chassagne-Montrachet, Chorey-Lès-Beaune, Landoix-Serrigny, Meursault, Monthélie, Pernand-Vergelesses, Pommard, Puligny-Montrachet, Saint-Aubin, Saint-Romain, Santenay, Savigny-Lès-Beaune e Volnay. Os Grand Cru desta sub área são Montrachet, Bâtard-Montrachet, Bienvenue-Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, Corton-Charlemagne e Criots-Bâtard-Montrachet. Os vinhos pertencentes a denominalção Côte de Baune Villages são produzidos por meio de misturas de outras uvas (blend) enquanto os Hautes-Côte de Baune tem un nível qualitativo inferior a causa da maior altitude a da menor exposição ao sol das videiras.
  3. CÔTE CHALONNAISE - localizada ao sul da Côte d'Or aqui se produzem vinhos brancos e tintos. Nesta sub área não existem vinhos Grand Crus mas temos diversos Premiere Cru, a ladeia mais famosa é Mercurey já em Bouzeron se produzem os melhores vinhos brancos oriundos da casta Aligoté. Outras aldeias famosas são Givry (vinhos tintos), Montagny (vinhos brancos) e Rully conhecida pela produção de espumantes método clássico denominados Cremant de Bourgogne e produzidos com castas Aligoté e, em menor porcentagem, Pinot Noir, CHardonnay, Pinor bianco e Pinor grigio.
  4. MÂCONNAIS - descendo mais ao sul se produzem vinhos brancos menos elaborados sendo que, nesta sub área, não estão presentes Premier Cru e Grand Cru. Os melhores vinhos desta sub área são os das aldeias Mâconnais, Poully-Fuissé e Saint-Veran, todos produzidos a partir de uvas Chardonnay. Curiosidade: nesta área existe uma pequena aldeia chamada justamente Chardonnay só que não se sabe se o nome da uva seja oriundo do nome do vilarejo ou vice versa.
  5. BEAUJOLAIS - é a sub área vinícola mais ao sul da Borgonha, completamente diferente das outras sub áreas mesmo pertencendo a mesma micro região. Diferente seja pelo clima que pelas uvas: aqui o protagonista é o Gamay, uva tinta com o qual é produzido o famoso Beaujolais Village, tão famoso graças ao marketing do governo francês que ofuscou outros vinhos bem mais importantes desta sub área. O 90% da produção é de vinhos tintos (os brancos são feitos a partir das castas Chardonnay e Aligoté e nos vinhos Beaujolais temos 3 classificações de qualidade: Beaujolais, Beaujolais Village e Beaujolais Cru que, neste caso, não indica os vinhedos mas sim as dez melhores aldeias da sub área:Brouilly, Chénas, Chiroubles, Côte de Brouilly, Fleurie, Juliénas, Mourgon, Moulin-à-Vent, Reginé e Saint-Amour.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

BOTRYTIS CINEREA e Mofo nobre: uma benção ou uma maldição pelas videiras?

A BOTRYTIS CINEREA é um fungo ou Ascomycota (tipologia a quem pertencem também a penicilina e os mofos dos queijos) que pertence a família das Sclerotiniaceae. A Botrytis Cinerea é um parasita muito comum que se desenvolve muito facilmente e rapidamente em frutas e verduras (até nas verduras ou frutas guardadas nas geladeiras de casa) e ama de modo especial a uva. Apesar de ter meio de combate-la é difícil controlá-la quando começa a se espalhar no meio dos vinhedos, especialmente se ajudada por condições climáticas bem específicas.
Na viticultura é conhecida como mofo cinza. O adjetivo cinerea, que é uma palavra em latim que quer dizer cinza, se refere a cor cinza que a uva o outras frutas adquirem quando são atacadas por este fungo:


Atualmente a Botrytis Cinerea é a doença que provoca os piores danos nas videiras do mundo inteiro mas, por outro lado, temos que agradecer a ela pela ação que desenvolve no outono, quando as folhas caem, no sentido de ajudar o solo no reaproveitamento das substâncias vitais das folhas e permitir que o ciclo da vida se prolifere. A Botrytis Cinerea se desenvolve muito rapidamente no período de amadurecimento das uvas, especialmente se encontra condições favoráveis como terrenos encharcados de água ou uma umidade atmosférica muito alta: nestes casos a uva fica podre e o mofo acido ataca os frutos que caem da planta.
O ataque da Botrytis Cinerea não é sempre prejudicial: por exemplo quando a uva madura é atacada pelo fungo em condições climáticas ideais (alternância de dias quentes e secos com condições mais úmidas) o contagio pode ser controlado. Nesta combinação de eventos e pelo fato que algumas variedades de uvas são mais resistentes ao fungo, a casca dos bagos fica mais porosa e a água pode evaporar durante os dias quentes, fazendo com que se obtenha uma maior concentração de açúcar nestes bagos e o buquê olfativo seja mais rico. Nstes casos a Botrytis Cinerea é chamada de Mofo Nobre. 
Para produzir alguns dos melhores vinhos botritizados os cachos são colhidos a mão e os bagos separados manualmente para utilizar somente aqueles que estão afetados pelo mofo: vinho como o Sautern, o Tokaj, os Beerenauslese e os mofados de Orvieto são todos produzidos a partir de uvas com mofos nobres.
Parece que a origem destes vinho venha da Hungria, pela produção de Tokaj que, durante a invasão Turca, foi abandonada nas videiras e, quando de volta aos campos, os produtores tentaram vinificar as uvas mofadas, descobrindo a metodologia dos vinhos botritizados. Temos que tomar cuidado pois não é todas as uvas passificadas são beneficiadas pela Botrytis Cinerea. Por exemplo no caso do Amarone o do Sforzato della Valtellina, onde as uvas são passificads nas cantinas e o produto final não é doce, a alteração olfativa induzida pelo mofo altera o perfil organoléptico do vinho.
A ação da Botrytis Cinerea no vinho é bem específica: ela aumenta a concentração de compostos aromáticos no vinho, produzindo aromas mais frutados, floreais e tostados. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O PAPEL DO AÇÚCAR NOS VINHOS - FERMENTAÇÃO E DEGUSTAÇÃO

Sem o açúcar, ou melhor os açucares, não existiria o vinho. Além de serem elementos fundamentais para a produção de uma das caraterísticas típicas dos vinhos - o álcool, são responsáveis para obtenção do equilíbrio gustativo dos vinhos. Vinho é muito mais que uma bebida alcoólica e a quantidade de açúcar, ou melhor a quantidade presente no mosto e sucessivamente no vinho, é fundamental para suas características organolépticas e para seu equilíbrio.
Se é verdade que quantidades consideráveis de açúcares classificam o vinho como doce e a ausência deles, ou quantidades baixas, o classificam como seco, quantidades intermediarias determinam perfis sensoriais muito específicos (pensem aos vinhos espumantes e as diferentes perfis sensoriais ditados pela quantidades de açucares presentes).
O açúcar é presente em qualquer tipo de vinho, não somente nos doces e a  percepção de doçura, como qualquer outro estímulo gustativo, é avaliado em função da intensidade dos estímulos antagonistas ou sinérgicos. Vamos tentar explicar melhor: a falta da percepção de um estímulo não significa a ausência da substância que o produz, mas poderia significar uma condição organoléptica onde aquela determinada substância é contrastada ou equilibrada por outras substâncias.
A apreciação para os vinhos doces mudou muito no decorrer do tempo e na evolução dos consumidores: no passado,  a partir da antiga Grécia, quando a enologia estava ainda para nascer, os vinhos doces eram os mais valiosos e apreciados, já hoje os consumidores finais se orientam por vinhos mais secos. A produção atual dos vinhos doces é marginal em comparação aos vinhos secos e de mesa, justamente devido a demanda menor e ao menor interesse por parte dos consumidores. Além do mais os vinhos doces de boa qualidade são bem mais caros que os mesmos vinhos secos de boa qualidade por causa do custo industrial mais alto (se falamos de uvas passificadas para fazer um litro de vinho são necessários de 3,5 Kg de uvas passificadas, já para um vinho comum é necessário 1,4 Kg de uva para fazer um litro de vinho).
Como falamos no começo o açúcar é essencial para a produção do vinho pois, sem eles, não poderíamos ter alguma bebida fermentada: ao longo do caminho que transformará o suco de uva (mosto) em vinho os açúcares, além de se transformar em álcool através da fermentação alcoólica, subirão várias transformações químicas, graças a ação das leveduras, que resultarão em diferentes percepções sensoriais no momento da degustação. Porém nem todos os açucares são iguais e cada tipo reage de maneira diferente em função do tipo de leveduras. Na natureza os açucares, definidos como glicídios, são elementos essenciais para a sobrevivência da maioria dos organismos: a procura pelos glicídios pelos organismos vegetais e animais é uma de suas atividades principais pois são a principal fonte de fornecimento de energia.
Nos bagos das uvas são presentes diferentes tipologias de açucares porém, aqueles mais predominantes são a glucose e a frutose. Durante o processo de fermentação alcoólica alguns açúcares, os que não sofrem fermentação, não são convertidos em álcool e CO2 pelas leveduras, deixando ao vinho um certo grau de doçura e esta, produzida pelos açúcares residuais, nem sempre é perceptível durante a degustação, pois as vezes é equilibrada por outras substâncias ou é tão baixa que fica aquém do limite de percepção.
A presença do açúcar no vinho pode ser obtida de várias maneiras:
  • interrompendo a fermentação antes que as leveduras completem o processo de fermentação (baixando a temperatura dos tanques de fermentação a - 4 C);
  • acrescentando ao vinho uma certa quantidade de açúcar (esta prática enológica não é mais permita pela maioria dos países produtores de vinho e só interessa aos vinhos espumantes);
  • escolhendo leveduras que não são suficientemente resistentes ao álcool (algumas leveduras conseguem sobreviver em ambiente com taxa alcoólica de até 17%, já outras morrem com taxas alcoólicas menores, quando as leveduras morrem antes de concluir todo o processo de fermentação se obterá um vinho menos alcoólico mas com um maior resíduo  de açúcar)
Nas degustações o açúcar desenvolve um papel muito mais complexo além de proporcionar a percepção de doçura: é fundamental para o equilíbrio gustativo dos diferentes elementos que compõem o vinho mas, ao mesmo tempo, precisa  ser balanceado de modo a não ficar excessivo. Entre todas as substâncias presentes no vinho os açúcares estabelecem uma específica relação de equilíbrio com os ácidos: a acidez é a principal qualidade organoléptica  que melhor contribui a equilibrar a doçura. Estamos falando de equilíbrio, então não uma diminuição das quantidades dos elementos mas sim a alteração da perceptibilidade, fazendo com que o estímulo seja equilibrado e harmônico.Temos um ótimo exemplo com o suco de limão: esta substância, notadamente de sabor áspero e ácido, encontra um bom equilíbrio gustativo com a adição de substâncias doces (se acrescento açúcar ao suco de limão, não estou diminuindo a carga de acidez do suco mas sim mitigando a percepção na boca em função da doçura do açúcar).
Outra substância que desenvolve um papel importante para contrastar o sensação de doçura é o CO2: em geral a ação do anidrido carbônico diminui significativamente a percepção dos açúcares dando a sensação de consumir uma bebida bem menos doce. É o que acontece nos vinhos espumantes: a presença marcante de CO2 diminui a sensação percebida dos açucares (alguns vinhos espumantes classificados como Extra-dry, ou seja com açúcares residuais de até 17 g/l., parecem Brut devido a ação da CO2). Já nos vinhos tintos a percepção dos açúcares é equilibrada pela presença dos taninos, notadamente adstringentes e ásperos, cuja ação, se devidamente controlada rende os vinhos tintos mais harmônicos.
Por fim até a temperatura pode influir sobre a percepção de doçura nos vinhos:  temperaturas maiores aumentam a sensação de doçura enquanto temperaturas muito baixas podem até eliminar por completo esta sensação.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Curso degustação ESPUMANTES

Abaixo o link para baixar a apresentação do curso degustação sobre vinhos espumantes ministrado ontem na Casa Porcini:

Espumantes

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

NA HORA DE PEDIR VINHO NO RESTAURANTE......

Uma recente pesquisa realizada pelo site italiano WineNews no Facebook estudou a tendência dos consumidores italianos na hora de pedir o vinho no restaurante.
1.500 participantes foram questionados se na hora da escolha do vinho no restaurante era mais importante a dica do sommelier e/ou do pessoal da sala, optar por um rótulo já conhecido, ou a escolha dependia de uma consulta as redes sociais.
O 59,8% dos entrevistados disseram que na hora da escolha escutam o parecer e as indicações do sommelier e/ou do pessoal da sala do restaurante que estão frequentando, demonstrando que o sommelier é ainda o elo principal entre o produtor e o consumidor de vinho na hora da escolha.
Já o 37,6% direciona as próprias escolhas sobre rótulos já conhecidos com uma clara tendência dos enófilos a confiar nos próprios conhecimentos enológicos.
Somente o 2,6% dos entrevistados, dado este muito abaixo das expectativas em função da presença maciça de aplicativos de vinhos, disse nortear a própria escolha em base a uma consulta no smartphone.
Foi, também, conduzida uma segunda enquete no Instagram com 2.800 participantes, porém com duas alternativas: confiar no conselho de experts (independentemente se sommelier, pessoal da sala ou por aplicativos da internet) ou optar por vinhos ou rótulos já conhecidos.
Desta vez os resultados foram diferentes: o 70,6% dos entrevistados responderam que preferem optar por garrafas já consumidas anteriormente, já o 29,4% prefere receber dicas sobre os vinhos que consumirá.
Esta diferença, talvez, dependa do público alvo que frequenta as redes sociais consultadas mas parece que, de alguma forma, a confiança dos enófilos na hora de escolher um vinho para acompanhar a própria refeição está aumento.
Vocês a qual categoria de consumidores pertencem?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020