sábado, 11 de dezembro de 2021

PRODUÇÃO DE VINHOS 2021

 Recentemente foram publicadas pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) as primeiras estimativas sobre a produção de vinhos a nível mundial de 2021 e, infelizmente, os dados não são nada animadores.

2021 será uma safra com produção muito baixa, com volume estimado de 250 milhões de hl., 6% abaixo da média histórica de 265 milhões de hl. que não foi alcançada nos últimos 2 anos, deixando a produção dos últimos nos últimos 4 anos abaixo da média histórica. Porém, contrariamente a quanto aconteceu em 2019 e 2020, quando foram os países do "novo mundo" a impactarem mais sobre a diminuição da produção mundial, em 2021 foi a Europa que teve as maiores contrações em termos de vinho produzido. Itália, França e Espanha, que normalmente representam quase a metade da produção do vinho mundial (128 milhões de hl.), este ano amargam resultados fortemente negativos que resultam em um deficit de produção agregado de 14 milhões de hl. 

Na Itália a OIV prevê uma produção de 44,5 milhões de hl., 9% a menos que 2020 e 3% abaixo da média histórica, na França a previsão da safra é de 34 milhões de hl., 27,5% abaixo da produção de 2020 e 22% abaixo da média histórica e, fato historicamente relevante, pela primeira vez atrás da Espanha por volume produzido, Espanha que apesar desta "façanha" não pode festejar pois os dados de produção estimados pela safra 2021 sinalizam um volume de 35 milhões de hl., 14% abaixo da produção registrada em 2020 e 6% abaixo da média histórica.



Quanto as estimativas das principais regiões italianas, todas amargam flexões significativas, menos a Sicilia (+9%) e a Campania (+5%), causadas principalmente por eventos atmosféricos adversos como as geadas na primavera, as secas no Sul da Itália unitamente ao aumento das temperaturas durante o último verão que se estendeu outono adentro. No detalhe: Toscana -25%, Lombardia -20%, Umbria e Abruzzo - 18%, Emilia Romagna, Sardegna e Molise -15%, Veneto -7%.

No versante dos preços a situação fica ainda mais tensa, pois, além da diminuição dos volumes produzidos estão sendo registrados aumentos consideráveis sobre todos os materiais utilizados na cadeia produtiva do setor, como papel (+6%), papelão (+35%), vidro (+15%), cortiça (+7%) além de dificuldade, por parte dos produtores mundiais, de fornecer os materiais em face a retomada da demanda após pandemia, que fez com que os prazos de entrega mais que dobrassem. Preparem-se porque virão aumentos por aí e, pelo visto, bem significativos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Rio Grande do Sul - a 21 região italiana está no Brasil (primeira parte)

Semana passada tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a Vale dos Vinhedos que, meu amigo Oscar, sempre falou ser a 21 região italiana. Quando ele falava isso ficava um pouco cético, mas depois desta viajem, em companhia da turma da Enoeventos e, obviamente, de minha esposa, não posso que concordar com Oscar. QUE BELISSIMA REGIÃO.

Por isso decidi compartilhar com vcs minha experiência, em etapas, por dia de permanência (infelizmente foram só 4), pois contar tudo de uma só vez seria muito demorado.

Nossa base foi em Garibaldi, em um Mosteiro que foi construído para acolher as irmãs da Congregação de São José que chegaram no Rio Grande do Sul para assumirem a formação das filhas dos imigrantes italianos que ali habitavam. Era o 23/12/1898. Ao longo dos anos parte do Mosteiro foi sede também da Escola São José e da Casa de Formação até que em 1972 foi convertido em Hotel para acolher hospedes que necessitassem de espaço para pernoite. Apesar de simples o ambiente é agradável, silencioso e tem o fascínio de um mosteiro de verdade, com pé altos infinitos, capelas e ate uma igreja que não se espera por tamanho e riqueza de detalhes.



 Já a cidade de Garibaldi é extremamente organizada, com o centro muito cuidado, com bares e restaurantes característicos, e bem organizado, a ponto de ter placas nos principais edifícios contando a história das famílias e da cidade, além de uma belíssima catedral que de noite fica iluminada em um espetáculo de tirar o folego



 Mas....e os vinhos e as vinícolas? 
Calma, vamos começar pela ordem cronológica de nossa viagem.

DIA 1 - (FLORES DA CUNHA) - LUIZ ARGENTA





Sem sombra de dúvida uma das grandes vinícolas do Rio Grade do Sul, que dispensa maiores apresentações. Com uma imponente e modernissima infraestrutura tem 55 ha. de videiras viníferas com rigoroso controle de qualidade que exige que sejam colhidos somente 1 kg de uva de cada videira para produção dos vinhos que possuem o selo de Identificação Geográfica Altos Montes. A Luiz Argenta oferece uma ampla gama de vinhos divididos em 3 linhas: a Jovem com vinhos frescos de safras mais recentes que não afinam em madeira mas que cativam pelos aromas frutados e pelo design de suas garrafas, todas provenientes da Itália, com os espumantes vinificados com o Método Charmat, a Clássica com vinhos de média estrutura e afinamento máximo de 9 meses em barricas de carvalho, com dois espumantes vinificados pelo método tradicional com 24 meses de hidrólise e a Cave que comporta vinhos de qualidade superior, de maior corpo e com potencial de guarda, vinificados só em safras excepcionais e espumantes 
vinificados pelo método tradicional com 48 meses de hidrólise.

DIA 1 - (FLORES DA CUNHA) - VINÍCOLA GAZZARO




Vinícola de caráter familiar fundada em 1945 como Sociedade de Bebidas Gazzi e que teve uma guinada pela modernidade e qualidade com o atual proprietário, Vanderlei Gazzi, que em 2003 muda o nome para o atual, e em 2008 foca o trabalho para produção de vinhos espumantes com o método Charmat e Champenoise muito apreciados pelos consumidores, além da produção de vinhos tranquilos finos, com destaque para o Chardonnay 2021 que afina por 6 meses em barricas de carvalho e que ganhou em 2020 a medalha de ouro no concurso internacional Awards Virtus em Portugal, e a medalha de ouro em 2021 no concurso Citadelles du Vin na França, para o Tannat 2020 e para o espumante método tradicional Nature, de grande caráter e corpo intenso. Todos os vinhos com ótima relação preço/qualidade. Um grande achado.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

AGLIANICONE - A casta da Campania, provável mãe do Aglianico e quase esquecida

 A localização é o sul da Campania, na microrregião chamada Cilento, onde a principal cidade é Salerno. A Campania é o berço da casta Aglianico que no Sannio e na Irpinia se exprime de forma magistral doando as únicas duas denominações tintas DOCG da região, o Aglianico del Taburno e o Taurasi respectivamente. Até poucos anos atrás se pensava que o Aglianicone fosse uma sub variedade do Aglianico, e somente em 1971 se constatou que as duas uvas não eram nem parentes, apesar de ter o nome praticamente identico. Aliás recentes estudos de DNA evidenciaram que a Aglianicone tem uma identidade muito próxima ao Ciliegiolo da Toscana.

Deixando do lado o aspecto mais técnico relativo as pesquisas genéticas para identificar com certeza se o Aglianicone é, ou não, a mãe do tão conhecido Aglianico, o que interessa mais é falar sobre as diferenças entre esta casta, praticamente desconhecida ao grande público e que quase desapareceu nos últimos 20 anos, passando de 250 ha plantados em 1990 para os atuais 63 ha., e o Aglianico. 

O Aglianicone tem um crescimento irregular do cacho, com bagos mais espaçados e  de tamanho menor ao do primo mais famoso: esta particularidade faz com que o amadurecimento da uva seja mais atrasada comportando uma falta de sincronização entre amadurecimento fenólico e tecnológico. As uvas são plantadas em terrenos calcários acima dos 400 m. onde o sol é o grande protagonista em toda a fase de desenvolvimento da planta: no verão é comum que as temperaturas superem os 40 graus e as uvas sobrevivem só graças a espessa vegetação foliar que as repara da exposição direta ao sol.

O único vinho produzido com esta casta, o Castel San Lorenzo DOC, é um vinho rústico com características vegetais, cujos aromas são típicos do Cilento e evocam, pelas frutas,  cerejas pretas maduras, pela flores, violetas e pela vegetal, cravos. Na boca os taninos são leves que tendem a ficar mais marcantes nos anos mais quentes, ma nunca poderosos, a acidez é moderada com graduação alcoólica média de 13,5% e resíduo de açucar mediamente alto.

 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

CHIANTI CLÁSSICO - Mudanças nas regras de produção para maior identificação com o território

 A assembleia de produtores do "Consorzio Gallo Nero" acabou de aprovar, com grande maioria, duas importantes mudanças nas regras de produção do mais tradicional vinho da Toscana, o Chianti Clássico Docg, regras que modificarão o disciplinar de produção, quando for publicado pelo Ministério da Agricoltura no Diário Oficial. De acordo a quanto comunicado por Giovanni Manetti, presidente do Consorzio, estas mudanças visam a valorização de um território único, coberto pelos bosques por 2/3 de sua extensão e que atualmente opera por mais da metade da própria superfície plantada com agricultura biológica. 

A última modificação do disciplinar de produção de 2013, publicada em 07/03/2014, introduziu a nova tipologia Chianti Classico Gran Selezione, como a de melhor qualidade dentro desta denominação, onde as uvas devem ser oriundas de um único vinhedo ou de vinhedos diferentes porém de uma única propriedade, e o vinho deve afinar, pelo menos, 30 meses, cuja 3 em garrafa, antes da comercialização.

A primeira proposta de modificação ao disciplinar atualmente apresentada e aprovada diz respeito a introdução de Unidades Geográficas Adicionais ao Chianti Clássico Docg: isso, na realidade, representa uma forma mais contundente de vincular o produto com o território para criar maior identidade, dividindo o território em áreas mais delimitadas, com maior homogeneidade, podendo indicar no rótulo o nome do borgo ou da localidade . Castellina, Castelnuovo Berardenga, Gaiole, Gerve, Lamole, Montefioralle, Panzano, Radda, San Casciano, San Donato in Poggio e Vagliali serão as novas Unidades Geográficas Adicionais que, numa primeira fase, poderão ser utilizadas somente na tipologia Gran Selezione.

A segunda mudança diz respeito ao blend para produção do Chianti Clássico Gran Selezione Docg: a porcentagem de Sangiovese necessário subiu de 80 para 90% e no restante 10% poderão ser utilizadas somente castas autóctones da Toscana, eliminando a possibilidade de utilizar castas internacionais. Mais uma vez falou mais alto a vontade dos produtores de elevar a qualidade do produto, firmando o compromisso de identificação mais profunda entre o vinho e as castas locais para reforçar de forma mais incisiva o binômio vinho-território (continua a obrigatoriedade da origem das uvas do mesmo vinhedo ou de vinhedos diferentes pertencente a uma única propriedade).

terça-feira, 15 de junho de 2021

PRODUÇÃO ITALIANA DE VINHOS 2020

Finalmente foram divulgados pelo ISTAT (Instituto Central de Estatística) os dados relativos a produção de vinhos da Itália em 2020, conforme tabela abaixo:


Considerados os dados agregados destacamos:

-) A produção aumentou 5,5% em comparação ao 2019, se atestando a quase 52 milhões de hectolitros contra os pouco mais de 49 milhões do ano passado, volume que mantém a Itália no primeiro lugar do mundo quanto a vinho produzido em 2020;

-) Os vinhos brancos continuam em aumento (7% em comparação ao 2019, enquanto os tintos só cresceram 4,1%) e representam o 57% dos vinhos produzidos na Itália;

-) Quanto as denominações existe uma clara tendência a priorizar a produção de vinhos de qualidade, como atestam os números da tabela acima: os vinhos DOCG/DOC aumentam 9,8%, os IGT 9,4% enquanto os Vinhos de Mesa registraram uma queda de 2,6%;

Analisando, agora, os dados por regiões podemos evidenciar o seguinte:

1) O Veneto continua a primeira região da Itália em termos de volumes produzidos, mesmo perdendo 2,6% em comparação a 2019, resultado oriundo da diminuição dos vinhos brancos DOCG/DOC (leia-se Prosecco), que em 2020 perderam quase 7%;

2) A Puglia continua no segundo degrau, com uma produção que se atesta em 9,667 milhões de hectolitros, com uma leve diminuição em comparação a 2019

3) No terceiro lugar a Emilia Romagna, que viu sua produção crescer em 2020 de 17%, alcançando a marca de 6,611 milhões de hectolitros;

Merece destaque especial a Sicília,  que viu a própria produção aumentar de espantosos 33% graças, especialmente, ao aumento da produção de vinhos de qualidade Docg/Doc brancos (+139%) e tintos (27%), enquanto Toscana, Campania e Piemonte mantiveram a produção praticamente inalterada em comparação ao ano anterior.

sexta-feira, 26 de março de 2021

"HUNDRED DAYS" o primeiro videogame simulador sobre o mundo do vinho

Dia 13 de Maio será lançado, primeiramente para PC e depois para o console Nintendo Switch, o novo videogame "Hundred Days". O projeto original foi elaborado pela IIDEA, associação que representa a indústria de videogame da Itália, e pela Nintendo, e quis criar uma nova oportunidade para que as pessoas mais novas conhecessem mais de perto o mundo do vinho, criando um game que simule o processo de produção do vinho.

O projeto nasceu na Itália, mais especificamente no Piemonte, na cidade de Alessandria, que está localizada entre duas das áreas mais votadas para a vitivinicultura italiana, Langhe e Monferrato. "Quem cresce nestas áreas" conta Elisa Farinetti, CEO da Broken Arms Games que assina este videogame e que será lançado na plataforma Steam, "está acostumado a viver entre vinhedos e viticultura, faz parte do dia dia, e justamente vivenciando este mundo que surgiu a ideia de criar um videogame sobre o universo do vinho". Elisa continua dizendo "a ideia principal era contar a história do nosso território através da vitivinicultura, por isso o objetivo do game será o desafio de produzir vinho: o jogador receberá em herança uma pequena cantina na Langhe e deverá provar as próprias habilidades no dia dia de um produtor de vinho, com personagens e uma história que representará a temática do processo, e dependendo do êxito das ações que ele implementar, receberá tarefas a serem cumpridas.

Durante o game, que tem um aspecto de simulação, mas detalhado e acessível, o jogador deverá fazer escolhas estratégicas como o tipo de videiras, métodos de produção, leveduras, remontagem, confecção de etiquetas, garrafas, logos etc. O game inicialmente está ambientado no Piemonte mas já estão sendo desenvolvidas atualizações regionais na Itália e no exterior, como Napa Valley e Bordeaux. Muitos os detalhes que estão incluídos neste game: análise dos terrenos, escolha das castas, poda, cuidado das videiras contra doenças, vindima, vinificação, envelhecimento, criação das garrafas, constituição de uma rede de venda e politicas de marketing, enfim todos os aspectos de um verdadeiro simulador. 

Estou ansioso para que este game seja lançado para me sentir um produtor de vinho, e vcs não estão?! 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

LIV-EX 2020 - ranking das grandes marcas mundiais de vinho

 Todo ano a LIV-EX publica várias informações referentes aos vinhos finos e acabou de ser lançado, semana passada, o ranking 2020 das grandes marcas mundiais de vinho. A Liv-Ex para confeccionar a classificação utiliza um conjunto de parâmetros como os volumes comercializados, o andamento dos preços, o número de etiquetas consideradas por cada marca e assim por diante.

Abaixo seguem as primeiras 100 marcas listadas pela LIV-EX 2020



Nos primeiros dois lugares da classificação duas marcas da Borgonha, Leroy e Domaine Leflaive com o gap entre o primeiro e o segundo bem significativo (18 pontos de diferença). O líder de 2019, Rousseau, agora é na 19 posição e grandes marcas como RDC e Petrus caem para 21 e 69 respectivamente.
Em geral 2020 foi um ano bom para os vinhos de maior prestigio, com os preços que, em média, aumentaram de 3,2%, mesmo que em ritmo menor se comparados a 2019 (+7%) e a 2018 (+14%), mas o preço por caixa diminui de  4.700,00 do ano passado para US$ 4.097,00 em função da mudança de mix (escolha de etiquetas mais econômicas).


A tabela acima mostra a classificação das 100 primeiras marcas por origem e, obviamente, a França é a grande protagonista com 73 das primeiras 100 marcas e com Bordeaux e Borgonha em primeiro e segundo lugar. A Itália  aparece em segundo lugar com 17 marcas e com uma performance sensacional já que, em 2019, as marcas italianas nas primeiras 100 posições eram somente 8. 
Para finalizar, se aprofundamos um pouco a situação das marcas italianas nos primeiros 100 da Liv-Ex, notamos que 4 marcas estão posicionadas no "top ten" (Gaja, Sassicaia, Ornellaia e Masseto), conforme evidenciado pela tabela abaixo:


Fica evidente que a região que rouba a cena quanto as marcas mais prestigiosas na Itália é a Toscana, com o Piemonte em seguida.